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Linda Martini

Rita Carmo

Recordar o passado e sonhar o futuro num sábado à noite

No sábado, Old Jerusalem apresentou o novo disco com um concerto onde o passado esteve sempre por perto. No coliseu, os Linda Martini celebraram o presente com os olhos postos no futuro. "It's all happening", como diria a personagem de Kate Hudson em Quase Famosos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Se há coisa que mais de dez anos a entrevistar bandas me ensinou é que um músico dirá sempre que o disco que se encontra a promover é o seu melhor. Francisco Silva, aka Old Jerusalem, também acredita que A Rose Is a Rose Is a Rose, lançado há poucas semanas, é o seu álbum mais bem sucedido até hoje. E eu não podia concordar mais: da solidez das canções à beleza dos arranjos, a cargo de Filipe Melo, o resultado é não raras vezes estonteante.

Contudo, quem se tiver deslocado à ZDB no passado sábado, terá ouvido uma confissão caricata: em palco com uma banda de quatro músicos em assinalável harmonia, Francisco Silva reconheceu que, quando lhe perguntam qual o melhor período deste projeto, terá de, em verdade, recuar até 2003 e falar de April, o seu primeiro disco.

A qualidade musical não será aqui o critério maior: à plateia atenta da ZDB, o portuense contou que, há 13 anos, encontrou em Lisboa - e não só - um grupo de pessoas que soube acarinhá-lo e, por pura amizade e admiração pelo seu trabalho, ajudá-lo a crescer. A recordação tocou boa parte dos presentes, fãs de primeira hora de Old Jerusalem. Em 2003, mais do que uma omnipresença, a internet era uma possibilidade, e melómanos de todos os credos reuniam-se no Fórum Sons, uma espécie de Facebook avant la letrre, que em marcha colocou muitas colaborações, amizades, casamentos e tudo à volta.

Com dois amigos, eu mantinha então uma fanzine - a Indies & Cowboys - onde falávamos de, e com, os artistas que tanto nos encantavam, de Iron & Wine a Neko Case, de Ryan Adams a Sufjan Stevens; perceber que, neste cantinho da península, havia mais quem se alimentasse de tais sons, transferindo-os até para a sua obra, foi uma pequena epifania, e daí até darmos destaque a Old Jerusalem (ou aos seus contemporâneos The Unplayable Sofa Guitar) um salto de pardal.

Ao recordar estes e muitos outros episódios na sala da Rua da Barroca, foi impossível não sentir alguma saudade desse ano de 2003, tão longínquo no calendário como presente na memória de uma comunidade que, naquela altura, alicerçada também em editoras independentes como a Borland, fazia acontecer.

A sentida dedicatória à amiga de Francisco Silva, e fã de Old Jerusalem, Tânia, para quem seguiu uma versão de "Too Pure", dos Sebadoh, reforçou o cariz emotivo da noite.

É raro um artista admitir o quão especial, ou irrepetível, foi determinado momento do seu percurso: o mais habitual, e compreensível, é que sublinhem a importância do presente. Mas, com Old Jerusalem, reconhecer o sol que brilhava aquando da chegada de April não esmorece a força da mais recente primavera: basta escutar A Rose Is a Rose Is a Rose, em disco ou ao vivo (toca no Maus Hábitos, no Porto, a 8 de abril, e no Teatro Gil Vicente, em Barcelos, a 16) para perceber que o nosso economista-cantautor nunca soou tão bem.

E por falar em presente, que dizer do arrebatamento causado, nessa mesma noite, pelos Linda Martini no Coliseu? Não estive, naturalmente, presente (o concerto decorria à mesma hora que o de Old Jerusalem), mas a fazer fé no texto do Rui Miguel Abreu e nas reações a quente por essa internet fora, a banda de Queluz conheceu um emocionante momento de consagração, naquela que continua a ser a mais emblemática das salas da capital.

Abençoado seja o ano de 2016, por na mesma noite nos permitir abraçar de forma tão distintas, mas igualmente saudáveis, os "fantasmas" do passado, presente e futuro da música portuguesa.