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Como nasce um “standard”?

Ao ouvir Michael Stipe a interpretar “The Man Who Sold The World” senti que aquela canção de 1970, que os Nirvana já tinham revsitado também brilhantemente, ganhava um novo estatuto.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há quem diga, numa afirmação que transporta tanto de humor negro como de sabedoria sobre as verdades dos factos da face mais industrial deste universo, que, muitas vezes, a morte é para um músico a chamada “best career move”. Ou seja, a jogada certa para a carreira avançar rumo a algo mais... lucrativo. E basta que recordemos o que sucedeu em 1980 com John Lennon ou, mais recentemente, com Michael Jackson ou Lou Reed, para reconhecermos que, até mesmo entre as estrelas planetárias, o encanto parece ser sempre maior na hora da despedida.

Com David Bowie foi o mesmo, levando Blackstar ao número um pelo mundo fora, a reboque trazendo esse álbum outros mais às tabelas dos mais vendidos. Não me lembrava de ver Bowie em primeiro lugar há muitos anos.

Mas agora passamos a outra etapa na construção de uma relação com o músico que vive de reencontros com a memória. Se continuam a surgir reedições e, ao mesmo tempo, começam a aparecer discos com gravações de arquivo (sobretudo gravadas ao vivo) que alargam a sua discografia a outras dimensões, por outro há todo um corpo de canções que cativa atenções e chama novas vozes a interpretar velhas canções.

Há algumas semanas, Lorde mostrou, acompanhada pelos músicos que andaram na estrada com o próprio Bowie, como “Life on Mars” é, de facto, uma das canções mais imortais de toda a obra do músico que nos deixou em janeiro.

Foi contudo esta semana que, ao ouvir Michel Stipe a interpretar, apenas com a ajuda de um piano, o clássico “The Man Who Sold The World” (canção que dava título ao terceiro álbum de estúdio de David Bowie, editado em 1970) que senti que houve finalmente deste vasto corpo de canções cuja revisitação transcendeu já aquele patamar habitual da versão (ou a “cover”, como agora diz quem não sabe que há uma palavra portuguesa para usar nestes casos), e se transformou já num “standard”.

Não porque havia já várias leituras feitas antes. E de facto já Lulu a interpretara em 1974. E, em 1994, os Nirvana fizeram de uma versão acústica desta velha canção um dos momentos mais belos e arrepiantes do seu Unplugged gravado em Nova Iorque, editado em disco já depois da morte de Kurt Cobain.

Ao escutar a interpretação de Michael Stipe, que levou a canção para além dos ecos naturais do seu berço rock’n’roll, o belo “The Man Who Sold The World” deixou de ser apenas uma canção de Bowie de quem alguns outros fizeram versões. Mas passou a ser uma canção de todos nós que, com a alma de Bowie guardada em si, ganha agora outra dimensão, abrindo as suas linhas e palavras a novos voos que, espero, sejam tão sublimes quanto os desta leitura pelo antigo vocalista dos R.E.M.

Já agora, há pelo catálogo de Bowie uma mão-cheia de outras canções à espera de semelhante tratamento, esperando-se que haja quem as consiga reinventar como os “songbooks” que grandes vozes do jazz fizeram já de canções de Porter ou Gershwin. E, como não quer a coisa, já ia sendo hora de Michael Stipe criar um disco a solo... Que a leitura deste “standard” de Bowie o inspire... Se assim for, a coisa promete.