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O que é que os Stones em Havana têm a ver com o Luaty Beirão em Luanda?

A música, já se sabe, toca-se com notas. As dos Stones em Havana soaram mais alto. As de um rapper de Luanda são para soar baixinho

Não houve um noticiário na TV, um site ou um jornal que tivesse deixado passar em branco a atuação dos Rolling Stones em Havana, a 25 de março.

A ocasião era para ser celebrada. E até foi apresentada, nalguns meios menos atentos, como o primeiro concerto de uma banda rock nesta nova Cuba livre. Afinal, não era bem assim: os Manic Street Preachers (em 2001) e os Audioslave (de Tom Morello, em 2005) já tinham pisado a terra de Fidel para concertos. E até durante este mês de março, os Major Lazer, a banda de Diplo, foi capaz de reunir 450 mil almas para dançar ao som da sua batida.

A relevância dos Stones, porém, é insofismável. Até por uma simples razão, ao contrário das bandas politicamente engajadas, a sua bandeira é única e exclusivamente a do rock’n’roll. Daí representarem mais facilmente os valores da liberdade que predominam no Ocidente.

Foi uma festa, transmitida em diferido para o mundo, capaz de juntar mais de um milhão de espectadores na Cidade Desportiva de Havana. Mas já tinham soado os últimos acordes da banda de Mick Jagger e Keith Richards quando chegou aos media o que mais havia por trás daquele “abraço histórico entre o povo cubano e a comunidade musical internacional”, tal como era descrito pelos promotores do evento.

Os Rolling Stones não recebiam cachet mas existiam custos que chegavam perto dos sete milhões de dólares (um cachet na Europa ronda os cinco milhões de dólares). E quem pagava a conta? A Fundashon Bon Intenshon. E o que é esta fundação? Uma instituição de beneficência que apoia clubes de futebol dedicados a crianças desprotegidas e que organiza concertos, também de beneficência, com Sting, Stevie Wonder, Chic e outros. E de quem é este projeto e onde está sediado? Pertence a Gregory Elias e localiza-se na ilha de Curaçao, um paraíso fiscal nas antigas Antilhas Holandesas.

Ora, Gregory Elias é também o presidente da United Trust, como veio revelar esta semana o El Confidencial. Trata-se de uma empresa líder em engenharia financeira, com capacidade para ajustar os seus clientes à legislação fiscal: “Sentimo-nos orgulhosos da nossa capacidade para cumprir as leis que regulam algumas situações financeiras mas desafiantes em todo o mundo”, pode ler-se nos seus prospetos.

A United Trust dedica também especial atenção aos iates. E ao futuro dos iates e da costa cubana. Só no Complexo de Punta Colorada conta que, num futuro próximo, poderão ser amarrados mais de 1400 mega-iates.

Jagger com Monteiro de Barros, num restaurante em Cascais, perto do Clube Naval

Jagger com Monteiro de Barros, num restaurante em Cascais, perto do Clube Naval

Restaurante O Pescador - Cascais

E aqui chegados não há como esquecer que os Stones alteraram a sua residência fiscal logo em 1971, quando gravaram Exile on Main Street e passaram a dispor dos serviços de engenharia fiscal de uma empresa holandesa chamada Promogroup. Impossível também olvidar a paixão de Mick Jagger por iates, a mesma que o levava a almoçar, quando esteve em Portugal para o seu primeiro concerto, com Patrick Monteiro de Barros, outro gestor naútico. A bem da liberdade, claro.

Ou seja, este foi o primeiro hino à liberdade que ouvimos nos últimos dias. O segundo tocou ontem. Foi enquanto se lia a sentença de Luaty Beirão, também conhecido como Ikonoklasta, e a de outros 16 cidadãos, condenados por se reunirem para ler um livro que discutia como se derrubam ditadores.

Luaty é luso-angolano e rapper. Isto é, usa o poder do verbo. E a vontade de exprimir sobre a atuação dos líderes políticos de Angola. Ou não. Uma sentença meteu-os na prisão, acusados de promoverem uma associação de malfeitores. A bem da liberdade, obviamente.

Originalmente publicado no Expresso Diário de 29 de março