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#liberdadejá

Há 17 pessoas condenadas em Angola a penas de prisão entre os dois e os oito anos pelo "crime" de ousarem sonhar com um futuro diferente. E agora?

A imprensa tem feito justo e merecido eco da condenação em Angola do grupo de 17 activistas em que se inclui Luaty Beirão, mas agora espera-se - deseja-se... - uma movimentação de fundo por parte dos que em Portugal acreditam ser este um desfecho injusto e absurdo para um caso claro de exercício de cidadania e liberdade de expressão.

É óbvio que Luaty não é um caso mais dramático do que qualquer um dos 16 restantes, mas, enquanto Ikonoklasta, este activista pisou palcos nacionais e tem ligações fortes à cena musical portuguesa - a gente como Batida, Valete, Xeg. Espera-se por isso que a sua prisão provoque uma vívida reacção por parte dos que, como ele, acreditam que pensar não é um crime, antes uma superior necessidade.

Há exemplos claros no passado de união de músicos em torno de causas merecedoras: serviço militar obrigatório, Timor, tragédias de diversas dimensões... Mas este é um caso diferente: um par, um artista, que com palavras ousou sonhar com um mundo novo, fez o que muitos não conseguem e passou das palavras aos actos, afrontando com a sua liberdade um regime que o mundo sabe estar muito longe da democracia.

Espera-se, claro, que o nosso estado reaja, até porque Luaty Beirão partilha com todos nós a nacionalidade portuguesa. Compreende-se que essa reacção tenha que seguir canais oficiais, obedecer a parâmetros diplomáticos, mas isso só torna mais urgente uma outra expressão de indignação, mais forte, mais clara, mais directa, mais sonora e visível. Essa reação devia passar por cadernos de rimas, por palcos, por estúdios, por rádios e publicações musicais. Reedite-se o primeiro álbum do Conjunto Ngonguenha, há demasiado tempo esgotado; toque-se alto a "Cuca" e "Tirei o Chapéu" de Batida, a "Pela Música pt 2" de Valete; organizem-se concertos que amplifiquem esta indignação; Luaty merece tudo isso. Mas nem é uma questão de mérito, é uma questão de dignidade, de honestidade moral da nossa comunidade musical, pelo menos da que canta palavras com valores semelhantes aos que inspiram Luaty.

Pelos "feeds" das nossas redes passam em rotina quase diária tantas e tão mesquinhas indignações - grita-se porque se esquece um nome numa lista, porque se fecha um bar, porque não se menciona uma banda num artigo - que não verbalizar agora a nossa oposição a uma situação verdadeiramente injusta, indigna e imoral é uma oportunidade desperdiçada de exercer o mais básico impulso de democracia e civilização. Não é Luaty que precisa que façamos barulho e que acreditemos que a música pode mudar o mundo (não o fez já no passado?...), somos nós mesmos que precisamos de o fazer em nome de tudo aquilo em que acreditamos, de tudo aquilo que aplaudimos na música que mexe com o mais fundo de nós. É a liberdade que o exige.