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E o melhor concerto que já vi num festival foi…

Todos queremos ver os nossos artistas favoritos num concerto "de sala". Mas por vezes os festivais potenciam certos espetáculos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A poucos meses da época alta daquilo a que chamamos festivais de verão, mas que na verdade se estendem da primavera até aos primeiros dias do outono, quase já sentimos no ar o cheiro a farturas (ou a gelados, maresia, hortelã ou outras ervas, consoante o evento de predileção de cada um e respetivas experiências). É, pois, uma altura tão boa como outra qualquer para carregar no rewind e recordar os melhores espetáculos presenciados em tal contexto.

Com a proliferação de festivais – há-os de norte a sul, para (praticamente) todos os gostos e em modalidades bem diversas –, surge também o inevitável distanciamento emocional dos mesmos e até algum enfado. Quantas vezes, aquando do anúncio de novos nomes para um cartaz, não surgem fãs desconsolados com a repetição de artistas (“outra vez arroz?”, gostavam os leitores da BLITZ, em tempos, de se queixar), e outros que apreciam determinada confirmação, sim senhor, mas preferiam vê-la num concerto de sala.

É verdade que são experiências distintas: no final do ano passado, ver a Dave Matthews Band na Meo Arena lembrou-me como pode ser gratificante estar numa sala cheia à espera do mesmo artista, e não num gigantesco recinto, no meio de um público fragmentado e muitas vezes desatento. Ainda assim, ainda me travei de razões – na Meo Arena, entenda-se – com dois cavalheiros que mantinham uma conversa de café durante a parte acústica do concerto, e que me explicaram não poderem calar-se porque já não se viam “há três anos!”. E, apesar do cenário festivaleiro, adorei na mesma medida o concerto da mesma banda no Alive de 2009.

Não acontecerá muitas vezes, mas por vezes o contexto de festival pode mesmo ser uma mais-valia para o concerto: como esquecer aquela edição de Paredes de Coura em que o dilúvio foi interrompido pela subida ao palco das CocoRosie? Até hoje guardo a imagem das manas Casady unidas num abraço delicado, capaz de aplacar os deuses da chuva courense, dando o mote para uma das mais memoráveis edições do festival minhoto. Na mesma “casa”, quatro anos antes, foi singular – e algo surreal – ver juntos na mesma noite Mr. Bungle e Flaming Lips, Mão Morta e Coldplay, então desconhecidos do público que viu Chris Martin tocar baladas com o globo da capa de Parachutes em cima do piano.

A segunda vida dos Faith no More ao Sudoeste, em 2009; a estreia de AM, o álbum californiano dos Arctic Monkeys, no “deserto” do Meco (2013); a arrepiante receção a Capicua, também no Super Bock Super Rock do Meco, mas em 2014; o regresso do herói da casa, Manel Cruz, à sua cidade-mãe, no NOS Primavera de 2015. Tudo concertos de exceção cuja intensidade a redoma de festival não estilhaçou, antes potenciou.

Mas, se me obrigassem a escolher apenas um, a medalha de ouro teria de ser entregue a Nick Cave. A pesquisa do nosso site diz-me que, pelas 00h30 do primeiro dia do NOS Primavera Sound de 2013, escrevi: “É bom viver numa época em que Nick Cave não só está vivo como encarna, como muitos poucos, a ideia do que uma estrela rock deve ser”. Hoje, acho que não foi (só) isso. Em palco, nas primeiras filas, no meio do recinto e quem sabe até nas barraquinhas de comes e bebes, o poder do australiano alastrou-se de forma tão animalesca como xamânica, enfeitiçando uma pequena multidão. Lembro-me de estar, com o inevitável bloco de notas, frente ao palco, encaixada entre fãs em êxtase, e de pensar que, em tantos anos de festivaleira, nunca vira nada assim. Inclusivamente da parte de Cave, que já vira e apreciara sobremaneira noutros concertos, até de sala. Não sei dizer se a lua estava cheia, mas naquela noite o homem de Warracknabeal transfigurou-se e levou uma plateia atrás, numa performance física como (infelizmente) já não se usa.

No final, uma amiga resumiu o sucedido proclamando que todas as primeiras filas tinham engravidado naquela noite. Mesmo sabendo que este tipo de fenómeno é a todos os níveis raríssimo, desejo a todos, neste advento festivaleiro, uma taxa de natalidade semelhante. Pelo menos no que tocar a memórias para colecionar até ao festival seguinte.