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Sex Pistols

O governo britânico despertou para a defesa do património punk?

Um graffiti agora oficialmente defendido em Denmark Stret não esconde anos de desinteresse do poder londrino para com uma zona da cidade que foi palco de episódios importantes na sua vida cultural

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Tal como a pintura de Delacroix (na National Gallery), os cem anos da Vogue (na National Potrait Gallery), as representações dos jardins na pintura do século XIX e XX (na Royal Acedemy Of Arts), a relação entre a performance e a fotografia (na Tate Modern), a história da eletrónica ao serviço da arte (Whitechapell Gallery) ou a música de Philip Glass, Steve Reich e John Adams (no Barbican), a celebração dos 40 anos do punk está a ser um dos protagonistas do mapa cultural londrino de 2016.

Tal como o assinalar dos 400 anos sobre a morte de William Shakespeare, a passagem de quatro décadas sobre aquele 1976 que assistiu à chegada ao Reino Unido, sobretudo via Londres, dos ecos de revolução que vinham de Nova Iorque, que ali ganham novo fôlego, com os Sex Pistols como principais líderes da nova mensagem, está a motivar um conjunto de propostas, entre ciclos de cinema, festivais de música e exposições (na British Library, Museum of London, Design Museum e várias galerias). Mas ao que entra em agenda, para ver, escutar e sentir e depois ficar na memória de quem lá foi, há também, da parte da autarquia, uma manifestação de atenção para com a herança patrimonial de um movimento de impacte global que teve na cidade um dos seus mais ativos pólos. Um graffiti, inscrito por Johnny Rotten, dos Sex Pistols, numa das paredes das traseiras do número 6 de Denmark Street, foi declarado como peça a preservar... Com sorte, e pelo andar da carruagem, poderá ser dentro de anos o último vestígio de uma zona da cidade que em tempos vibrava entre lojas de discos, de instrumentos (as que ainda ali sobrevivem) e palcos de música ao vivo.

Aquele espaço, num edifício cuja história remonta ao século XVII, e numa rua que ainda hoje é casa para várias lojas de instrumentos (e em tempos albergava uma das melhores livrarias sobre música pop/rock, a Helter Skelter), correspondia em 1976 ao lugar onde os Sex Pistols ensaiavam, gravavam e chegaram mesmo a viver. Tal como Nova Iorque reconheceu em 2007 o valor patrimonial do número 1520 da Sedwick Avenue, no Bronx (onde em tempos viveu o DJ Kool Herc), muitas vezes descrito como o berço do hip hop, igual sorte não tendo contudo conhecido o mítico CBGB, o “berço do punk” na Bowery (no East Village de Manhattan), cujo espaço alberga hoje uma loja de pronto a vestir, o gesto oficial britânico pode levantar precedente em solo europeu, onde não faltam certamente lugares da história da cultura pop merecedores de semelhante reconhecimento. Mas se calhar vem tarde... E em tempo de fazer mais pelo turismo do que pela preservação do mesmo corpo de memórias a que pertence, muitas delas tendo já desaparecido.

A classificação que o graffiti e o edifício agora receberam não serve naturalmente de colete de salvação para tudo o que é punk e habita em Londres. O filho de Malcolm McLaren (que foi manager dos Sex Pistols) e Vivienne Westwood (que ajudou a definir o “look” do movimento) ameaçou há dias queimar uma coleção valiosa de memorabillia ligada ao punk, como crítica pelo facto deste se ter tornado um fenómeno de aceitação mainstream (como se não fosse esse, afinal, o destino de tantas outras revoluções).

A defesa do graffiti e do edifício não salvou contudo nem o Marquee nem o Dominion Theatre, palcos que habitavam a Charing Cross Road, da qual Denmark Street é uma transversal (o Marquee viveu ali os seus últimos anos, apesar de ter surgido em Ofxord Street e passado depois por Wardour Street, mas tudo ali perto).

Esta decisão que agora chega também salvou as (muitas) pequenas lojas de discos que em tempos faziam daquela zona de Londres a capital dos colecionadores e dos mais ávidos de descobertas de coisas para ouvir. É claro que não havia internet nesses tempos. Mas ao caminhar hoje em Berwick Street, onde não restam senão a histórica Rekless Records (que vende segunda mão) agora de cara lavada e a Sister Ray (que sobrevive mesmo em frente à extinta Select-A-Disc, mas é uma sombra do que foi), ao ver tantos cafés, gelatarias e restaurantes, senti que os apetites da cidade migraram para outros gostos.

O gesto oficial pelo graffiti de Johnny Rotten é bonito. E importante. Mas não faz esquecer quanto desinteresse houve da cidade pela preservação do Soho como sede de acontecimentos que fizeram episódios importantes na história da música popular made in UK.