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Buraka e Moonspell: isto não é um cachimbo!

“Isto não é uma polémica, Fernando, é uma discussão intelectual”. A garantia é oferecida por Rui Miguel Abreu.

No passado dia 19, no seu blogue "The Portuguese Wolf", o vocalista dos Moonspell voltou a abordar o caso Buraka/Moonspell levantado por um texto de Vítor Belanciano no Público.

Num documento titulado "The New Intolerance", Fernando Ribeiro apresenta o seu ponto de vista sobre o que vê como uma polémica "viral" que dominou as atenções de jornalistas, agentes, músicos e fãs durante um par de semanas. Escreve o vocalista que "a imprensa cultural e musical dominante, dos jornais relevantes, é um conjunto de snobs". O homem que também emprestou a sua voz e presença ao projeto Amália Hoje argumenta que a ideia sugerda por Vítor Belanciano foi amplificada por um "conjunto de ratazanas" (estou a traduzir "rat pack" o melhor que posso) e que ele mesmo teve o cuidado de pedir desculpas aos Buraka Som Sistema em privado porque, assegura, nada o move contra o grupo de From Buraka To The World.

O vocalista dos Moonspell apresenta depois o metal como um género injustiçado em Portugal, que há muito derruba barreiras sociais e que muito tem feito por uma sociedade inclusiva, "muito mais do que bandas cuja única conquista é o apoio de jornalistas hipsters". "Do meu ponto de vista", escreve Fernando Ribeiro, negar ao metal os méritos de ser uma cultura, com um impacto socio-cultural e uma consciência social, é "vil e racista". Ribeiro explica que graças ao metal foi iluminado pelos trabalhos de Coleridge, Baudelaire e Blake. E remata, explicando ter sentido o efeito de quem olha para isto tudo com "dois pesos e duas medidas": "quando alguém lê Pessoa por causa de Opium dos Moonspell ou quando alguém dança freneticamente num clube ao som do kuduro". "Será este último exemplo mais cultural do que o primeiro?", pergunta.

Posso tentar responder: isto não é um cachimbo, caro Fernando, é uma mera representação de um cachimbo. O texto de Vítor Belanciano também não era a realidade, antes uma mera observação da realidade, a partir de um ponto de vista claro. É natural que num texto sobre Buraka se escolha um ângulo mais apertado e se deixe o resto da história da música de lado. O "esquecimento" dos Moonspell ou dos Madredeus ou de quem quer que possa ter ficado de fora não foi um ataque, tal como não é um ataque a mais ninguém quando se enaltecem os feitos internacionais dos Moonspell e não se mencionam as notáveis carreiras de, sei lá, Legendary Tigerman ou Dead Combo, por exemplo. É apenas uma questão de foco. E do que se que quer enaltecer no texto.

Quanto ao remate de um texto que leva o título "a nova intolerância" e que opõe o acto intelectual de ler Pessoa ao acto físico de dançar kuduro - "qual dos exemplos é mais cultural?", deseja Fernando saber. Bem tudo depende da perspectiva, não é Fernando? O que é mais desportivo? Correr uma maratona? Ou dar uma tacada de golfe? O que é mais científico? Dividir o átomo? Ou curar a poliomielite? E, já agora, o que faz mais sentido? Escrever sobre música? Ou, como dizia o outro, dançar sobre arquitectura? Uma certeza: isto não é um cachimbo. É assim, meio que a modos, uma maneira fixe de eu dizer que sei quem foi o Magritte apesar de dançar kuduro mal e porcamente.

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