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Jeff Buckley, uma luz que não se apaga

Há mais um disco na obra póstuma de Jeff Buckey. Mas quais destes títulos acrescentam realmente algo ao seu legado?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Aproximava-se a década de 90 do seu fim quando, tal como boa parte dos meus colegas de faculdade, decidi procurar uma instrução mais “prática” no centro de formação de jornalistas de Lisboa, também conhecido como Cenjor. Cansada de ouvir dizer que só com a licenciatura em Comunicação Social não iria longe, inscrevi-me na escola que, na altura, funcionava num antigo palacete, e dei por bem empregues os três meses de aulas e exercícios efetivamente práticos (embora, fica a nota para os interessados neste belo ofício, nada substitua a prática como começar a trabalhar).

Além das diferenças entre notícia e crónica, entrevista ou reportagem, trouxe-me aquele ateliê em “imprensa escrita” um outro “aprendizado”, como diz o povo brasileiro, com quem o meu coração está (ainda mais) solidário por estes dias. Na pequena turma que integrei, um rapaz cujo nome infelizmente esqueci ostentava no currículo a mais rara das experiências. Tendo vivido até há pouco tempo em França, orgulhava-se o meu colega de ter visto o Jeff Buckley em concerto. Melhor: naquele que provavelmente foi o país a mais carinhosamente acolher o norte-americano, este garçon tinha assistido a um showcase do homem de Grace numa estação de rádio parisiense. E tinha uma gravação para prová-lo.

É possível que, três ou quatro mudanças de quarto & casa depois, a cassete que me gravou com tal intimista atuação se tenha extraviado. Mas na minha memória permanece o deslumbramento com a ideia de respirar o mesmo ar de alguém que estivera a poucos metros de Jeff Buckley. Quando descobri Grace – assim mesmo, descobri-lo: uno, inteiro, como a obra magna que se revela à primeira escuta – já o seu autor tinha mergulhado nas aziagas águas do Mississippi. Desde então, e por mão da sua mãe, Mary Guibert, a obra póstuma tem crescido de forma surpreendente para alguém que não terá deixado um volumoso manancial de gravações: You and I, lançado este mês, com várias versões (Smiths, Dylan, Led Zeppelin) gravadas em estúdio um ano antes de Grace, é o décimo título editado desde 1998. Buckley morreu um ano antes, com 30 anos e um belíssimo segundo disco “na barriga”. Tal como o título sugere, Sketches For My Sweetheart The Drunk reuniria, pouco depois, os esboços mais ou menos acabados de canções que tinham tudo para continuar a dar corpo à lenda de Jeff Buckley. Que subsiste até hoje, por um outro caminho.

Tenho dúvidas quanto a boa parte das compilações (de raridades, gravações ao vivo, rascunhos incipientes) que perfazem a imensa discografia póstuma do rapaz de Anaheim, Califórnia. O que acrescentam à mística de um artista a quem um álbum só – Grace, a casa de “Last Goodbye” ou “Mojo Pin” – garantiu a eternidade?

Como em tudo, há exceções, e Grace Around The World, lançado em 2009 como CD e DVD, é a minha predileta. Aqui se alinham quase 20 atuações de um mui jovem Jeff Buckley em vários programas de televisão de meados dos anos 90. Há imagens registadas em programas da MTV e da BBC, mas também em pequenos clubes de Nova Orleães ou na Alemanha, bem como uma onírica entrevista num autocarro de digressão, algures na primavera de 1995. Estas imagens comovem-me não só pela prova que fazem da excelência de Buckley como intérprete, capaz de ascender do sussurro ao grito sem qualquer perda de controlo ou intensidade, mas também por representarem uma viagem, algo nostálgica, a um outro tempo, em que a música ao vivo deste calibre tinha lugar na televisão. Sem apresentadores histriónicos, sem chamadas de valor acrescentado, mas com toda a alma que um “convidado musical” como Jeff Buckley oferecia sem aparente esforço.

Depois de, siderada, devorar este DVD, comprei duas cópias para oferecer, no Natal daquele ano, a duas amigas a quem a voz de “Lover You Should’ve Come Over” também faz falta. Tal como quando o colega “francês” do Cenjor me passou a cassete com o concerto a que assistira, tal como hoje alguém avisará um amigo de que You and I já está disponível para streaming num qualquer site de música, Jeff Buckley continua a ser um segredo que queremos partilhar com aqueles que nos são mais próximos. Como todos os tesouros mais preciosos e singulares.