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E tu, o que é que andas a ouvir?

Ui, tanta coisa. Tal como… err... deixem-me ver os meus apontamentos

Falo por mim, claro: era uma pergunta tão fácil de responder em 1992, 1995 ou 1999. Nesses tempos, o que eu “andava a ouvir” era o que eu “andava a comprar”. Pouca coisa, portanto, que o dinheiro estava bem contado – até 1995, Páscoas e Natais, padrinhos e avós a bancar; daí para a frente, e até surgirem os primeiros trabalhos pagos, muita sandocha ao almoço e muita ponderação na altura de largar os 3 contos e tal. É fácil, portanto, dizer o que andava a ouvir em 1992, 1995 ou 1999. Basta olhar para as prateleiras, hoje demasiadamente preenchidas. Farei o exercício: 1992, Generation Terrorists, dos Manic Street Preachers, a rodar incessantemente no meio de muita rockalhada hoje ligeiramente embaraçosa; 1995, britpop dos sete costados, Blur, Oasis, Suede e depois Pulp e mais uns quantos de que não rezará a história; 1999, Flaming Lips e Mercury Rev nos intervalos de Belle & Sebastian e Divine Comedy.

A pergunta “E tu, o que é que andas a ouvir?” é hoje muito mais complicada de responder do que há 20 anos. Presumindo que o meu interlocutor quererá saber “novidades” e não apanhar com os meus fetiches de sempre (mas, já agora, terei andado “sempre” a ouvir Scott Walker, Low, Nick Drake, Big Star, Guided By Voices, T. Rex, Jesus & Mary Chain, Clientele, Felt, Mary Timony, Apples In Stereo, Buzzcocks, Olivia Tremor Control, McCarthy, Spoon, Art Brut, Primal Scream, The Zombies, XTC, fora os outros), a interação não é imediata e passa invariavelmente por uma certa retração da minha parte. Como qualquer melómano hesitante na altura de tirar um disco da prateleira para pôr a tocar num sábado à tarde de limpezas, não sei a maior parte das vezes o que responder. Ou por onde começar. Porque, com “tudo” à mão de semear, “all you can eat”, “tudo” se mistura (onde, senão num buffet, faríamos suceder carne assada com castanhas a uma salada de polvo?) e tudo se confunde. E uma velharia recém-descoberta pode ser a maior novidade.

Uma coisa me parece certa: se, no futuro, quisermos rememorar a música que ouvíamos em 2016, 2020 ou 2028, será bom começarmos a tomar notas porque a cabeça já não chega – e não haverá CDs nas prateleiras para sinalizar o percurso. Façamos playlists, consultemos o histórico dos nossos hábitos de audição, reforcemos as afeições, não nos limitemos a surfar na onda da abundância com diletantismo. Um dia, mais cedo do que tarde, vamos esquecer-nos de tudo. E vamos andar a consultar topes e listas que não são os nossos e a acreditar que os nossos prazeres foram os mesmos de toda a gente que nos rodeia.

E eu, o que é que ando a ouvir em 2016? Com pequenos post-it, para memória futura:

Capitão Fausto - "Amanhã Tou Melhor"

Água na boca. É Verão em março.

Cate Le Bon - "Wonderful"

Nico na loja de brinquedos.

Massive Attack - "Take It There" (feat. Tricky)

"Isto é tão massive e tricky ao mesmo tempo" (pilhado aos comentários do YouTube)

Minor Victories - "A Hundred Ropes"

Slowdive + Mogwai + Editors.

David Vassalotti - "Lady Day Redux"

Um riff de guitarra que parece uma fornalha e um tipo a cantar numa igreja e, por isso, tem qualquer coisa de Arcade Fire.

Kevin Morby - "I Have Been to the Mountain"

Belo clip. Não esquecer de ver em Paredes de Coura. Espero que leve o coro e os metais mariachi.