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Cairá Kanye West nos mesmos equívocos de Prince?

Depois de uma série de discos de excelência nos anos 80, a obra de Prince conheceu alguns episódios menos marcantes quando a quantidade de edições excedeu a de boas canções e novas ideias. Ao anunciar três discos para este ano, arrisca Kanye West entrar num processo semelhante?

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Na cronologia da discografia de Kanye West, o recentemente editado (e mais recentemente retificado) The Life of Pablo surge uma dúzia de anos após a sua estreia em álbum que se fez, em 2004, ao som de The College Dropout. O mesmo intervalo corresponde, na discografia de Prince, ao tempo que separa For You, a sua estreia, em 1978, de Grafitti Bridge, álbum que, em 1990, correspondeu ao seu primeiro tropeção, após uma sucessão absolutamente incrível de discos que dele tinham feito uma das figuras mais cativantes, aclamadas e regulares da década de 80. Não vamos, contudo, comparar Grafitti Bridge (o álbum no qual entra em cena o coletivo New Power Generation) ao mais recente disco de Kanye West...

Tal como Kanye West nos últimos tempos, também Prince foi um ser maior na música daquele tempo. E se contarmos a sucessão de álbuns de cinco estrelas que editou entre 1982 e 1987 – 1999 (1982), Purple Rain (1984), Around The World in a Day (1985), Parade (1986) e Sign of the Times (1987) – e a eles juntarmos os discos igualmente no patamar daquilo que descreveríamos como “muito bom” que encontramos em Controversy (1981), Lovessexy (1988) e Batman (1989), temos de reconhecer na sua obra dos anos 80 uma das mais constantes, marcantes e iluminadas pelo génio entre as demais criadas por aqueles dias.

Mas até os grandes génios podem descarrilar. E mesmo tendo Prince lançado alguns títulos igualmente interessantes depois de Diamonds and Pearls (1991), a verdade é que nunca repetiu uma série daquele calibre nem a excelência daquele lote. Convém aqui lembrar que foi nos anos 90 que surgiu aquela sua vontade em não assinar os discos com seu nome. Data ainda desse tempo o conflito que o opôs à editora. Uma vez dela liberto – ou “emancipado” como sugeriu no título de um álbum editado por esses dias –, ganhou outro poder de decisão sobre a sua agenda editorial. Lançou então os discos que quis, com o ritmo e extensão de alinhamentos que bem entendeu. Mas a verdade é que juntou à sua obra alguns álbuns que em nada traduziam o apelo gourmet de outros tempos. E editar discos triplos ou quádruplos ou mais do que um álbum por ano por vezes pode impedir que se aplique uma preocupação que tantas vezes é equacionada quando se está a misturar um disco e a escolher que faixas vai incluir: a de escolher o que fica de fora. Há, naturalmente, motivos mais do que suficientes para continuarmos a admirar Prince, mas mesmo com uma ou outra canção de primeira linha, faz tempo que não nos dá um álbum tão arrebatador e memorável quanto esses que fizeram história nos oitentas.

Todo este conjunto de memórias que lembram os melhores dias e os momentos “assim assim” de Prince servem para refletir sobre o que poderá ser o futuro próximo na obra de Kanye West se a sua obra não se sujeitar a filtros que garantam que o que chega a disco (ou o suporte pelo qual lançar a música) cria novos alinhamentos ao nível daquilo a que nos habituou. Até aqui Kanye West assinou, de facto, uma discografia notável. E é bem possível que esteja no lado certo da história ao apostar tão claramente nas novas possibilidades do mercado digital. Anunciou contudo três álbuns para editar este ano. Ou seja, mais dois ainda... É certo que não se fala dos discos antes de os ouvirmos. Espero, então, que não representem para si o mesmo que os episódios algo inconsequentes, mesmo que tecnicamente muito competentes, em que música de Prince desaguou quando a quantidade de edições deixou de traduzir igual proporção de novas ideias e grandes composições.