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Quem quer ser Kanye West?

As regras do jogo estão a mudar radicalmente. E Kanye West prova-o todos os dias

Anda por aí uma controvérsia sobre quem tem a maior carreira internacional. Uns votam nos Moonspell, outros nos Buraka Som Sistema. Quase todos decidem de acordo com o seu gosto pessoal ou proximidade a uns e outros. Poucos demonstram preocupação com um mínimo de objectividade.

Mostrem-me o número de concertos, o valor do cachets e as salas onde atuaram para se poder ter uma noção mais rigorosa do que estamos a falar. Posto isto, é fácil concluir que ambos se dedicam a um nicho de mercado que nunca conseguiram ultrapassar. Fica também claro que subiram o mais alto possível dentro do circuito ou mercado a que se dirigiam. Parabéns! Devemos todos ficar contentes com isso.

Tenho para mim que vale mais a pena olhar para o modo de produção da música nos dias de hoje. Já todos sabemos que a forma de escutar música tem sido alterada de maneira brutal nos últimos anos. Mas pouco se tem dito sobre a maneira de a produzir.

A esse respeito, Kanye West continua a ser o exemplo mais fulgurante. Para quem vaticinava o fim do álbum perante o advento do streaming, ele demonstra o contrário. As notícias dos últimos dias descrevem um processo de work in progress sobre The Life of Pablo que surge como algo completamente novo. Ainda ontem, West alterou o seu último disco, reafirmando que esse álbum é uma obra inacabada.

Não é por acaso que tal sucede. Ao contrário das carreiras dos Moonspell e dos Buraka Som Sistema, sempre marcadas por períodos de interrupção ditados pelo mercado, Kanye West sabe que o artista que é um verdadeiro artista tem que estar em contacto permanente e diário com o seu público.

Isso deita por terra a tradicional calendarização do artista pop, que ora está em estúdio, ora se dedica a promover o álbum, ora parte em digressão, ora vai de férias. Num mundo em que a disputa pela atenção é lei, é necessário fazer tudo isso e muito. Em simultâneo.

Kanye mostra o caminho. É essencial desenvolver atividades para-musicais, como lançar linhas de roupa. É incontornável uma atividade frenética nas redes sociais, seja no Twitter ou no Instagram. É indispensável mostrar a mulher e os filhos e fazer disso um romance.

Em Portugal há um bom aforisma para este novo estado das coisas: longe da vista, longe do coração. E se todos podemos ser lestos a criticar toda a agitação que é própria destes novos artistas e que se alarga muito para lá da música, também é preciso estar consciente de que esse é o novo jogo.

Trata-se de uma espécie de vale tudo em que, contudo, a música continua a ser peça essencial. É saber que uma coisa e as outras não estão apartadas e que a vida sentimental de Kanye West, muito provavelmente, depende da sua produção musical. E vice-versa. Que essas vidas transmitidas em direto para o mundo são, muito provavelmente, as suas obras de arte.

Quero dizer, é o estatuto de artista pop elevado à extrema potência, com a máxima exposição mas também um jogo de sombras que se esconde atrás do dinheiro. Não são cinco minutos de fama, como preconizava Andy Warhol. É dedicar uma vida inteira para se pertencer ao grupo de cinco artistas que realmente têm fama.

E esse é um jogo que se joga num palco global, na TV generalista e nas redes sociais; mas também nas mais prestigiadas salas, com os maiores cachets, para se fazerem as maiores digressões. Do mundo.