Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Je Suis Buraka

A polémica que se seguiu ao texto sobre o percurso de uma década dos Buraka Som Sistema assinado por Vítor Belanciano no Público é reveladora. Os Moonspell falam em "racismo musical". Rui Miguel Abreu nem percebe o que é isso...

Racismo aplica-se à ideia de "raça", falsa, claro, porque a raça humana é uma apenas, embora plural em etnias. Talvez os Moonspell quisessem apontar o dedo a um certo "generismo musical" ou seja a discriminação - favorável ou desfavorável - de um determinado género musical, no caso o metal, quando se insurgiram publicamente contra uma ideia apresentada por Vítor Belanciano numa peça jornalística assinada no Público, na semana passada, a propósito da carreira internacional dos Buraka Som Sistema.

Como se sabe, a propósito de uma recente polémica por causa de um suposto "branqueamento" dos Óscares, pessoas como Charlotte Rampling vieram tentar inverter acusações e falar em "racismo dirigido aos brancos". A ideia é absurda: este "ismo" desprezível assenta num desequilibrio - histórico, refira-se - de forças, no facto de existir uma cultura opressora e outra oprimida. Os brancos nunca foram oprimidos nos Óscares, como é óbvio.

Transponha-se agora esta noção para a música: será o metal, género que recebe generosa atenção de media especializados, como é o caso da BLITZ, mas não só, que tem um título a si dedicado regularmente nas bancas, que tem representação em muitos festivais e até gera eventos especializados, que há anos goza da atenção de programas de autor em rádios nacionais realmente vítima de um certo "generismo", para usar um termo alternativo ao inadequado "racismo"? Não me parece.

A ideia defendida por Vítor Belanciano é, na verdade, perfeitamente defensável: a atenção internacional devotada aos Buraka não tem realmente paralelo. Os Moonspell editam discos no exterior e fazem digressões internacionais há muitos anos, mas isso não significa que sejam a vanguarda de um movimento de fundo que tem transformado a face da música e até, pode argumentar-se, da sociedade. As novas músicas africanas urbanas têm hoje uma exposição que lhes foi negada durante décadas e os Buraka são o sinal mais visível dessa nova ordem de coisas.

Os media internacional perceberam isso, porque se trata de um movimento global, com múltiplos e simultâneos pontos de origem, de Luanda aos subúrbios de Lisboa, dos morros do Rio de Janeiro aos arredores de Londres, dos bairros periféricos de Caracas aos clubes da zona errada de Chicago. Estas são as coordenadas de um novo mundo e os Buraka, em dez anos, tornaram-se numa das suas mais visíveis faces. Não se trata aqui de medir talentos, de contar decibéis ou sequer de identificar quem fez os melhores discos (mas também podemos falar disso...), antes de perceber que os Buraka Som Sistema no seu breve, mas intenso percurso internacional conseguiram transmitir um vislumbre de um novo mundo: plural, multiétnico, celebratório, pan-cultural. Penso que era a essa transversalidade que Vítor Belanciano se referia. Os Moonspell simplesmente jogam noutro campeonato.

  • Back to Mono?

    Opinião

    Pegando no título de uma famosa retrospectiva da obra de Phil Spector, Rui Miguel Abreu olha hoje para o Tidal, PJ Harvey e John Parish, para o vinil, para o CD, para Kanye West, Kendrick Lamar, para o stereo e para os novos paradigmas de qualidade sonora

  • O CD faz hoje 33 anos. Parabéns CD!

    Opinião

    Rui Miguel Abreu dá os parabéns a um formato que já esteve em coma, mas que teima em resistir, seja em edições artesanais ou em edições de luxo absoluto. Duas faces de uma mesma moeda. Prateada, claro

  • Quanto mais negra a amora...

    Opinião

    ...mais doce o sumo, diz o ditado, mas a América tem tido alguma dificuldade em engolir o que artistas como Beyoncé ou Kendrick Lamar têm feito nos últimos tempos, aproveitando a visibilidade conseguida com as suas carreiras artísticas