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Retimbrar, ou o “vadio” que virou gato de casa

Eram um grupo de percussão com mais de 30 pessoas, hoje são uma banda com um belo disco de estreia. Sai a 1 de abril e não é mentira

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quem vê António Serginho, frenético percussionista nascido em Santa Maria de Lamas há 30 anos, a liderar uma arruada como aquela que presenciámos no festival Bons Sons, no verão passado, imediatamente pensará que o rapaz de cabelo encaracolado nasceu para tocar instrumentos desta família. Na verdade, a percussão entrou na sua vida por acaso – um feliz acaso, como conta à BLITZ, numa entrevista que poderá ler em breve. Serginho, que hoje toca com Manel Cruz (integrou, no ano passado, o quarteto do espetáculo Estação de Serviço) ou Deolinda, inscreveu-se nas aulas de percussão porque, na escola de Espinho onde completou o ensino secundário, não havia curso de guitarra, instrumento que tocava desde os 8 anos.

Peça valiosíssima e identificável de todos os discos aos quais empresta a sua energia e criatividade, António Serginho tem nos Retimbrar a menina dos seus olhos. Criado há quase dez anos por Andres “Pancho” Tarabbia, percussionista uruguaio radicado em Portugal, o grupo já teve várias vidas. A certa altura, em modo de pequena grande orquestra de rua, chegou a congregar mais de 30 pessoas. Hoje, são 12 os “residentes” dos Retimbrar, que souberam metamorfosear-se sem trair a primeira encarnação. No começo, eram um grupo de percussão, apostado em explorar diversos (e volumosos) instrumentos do género, associados à música popular portuguesa, mas não só. A Casa da Música teve aí um papel importante, desde os verdes anos até às bem mais recentes gravações de Voa Pé, primeiro disco dos Retimbrar, quase a chegar às lojas. “Decidimos gravar lá só os tambores e instrumentos muito grandes, que precisavam de uma sala grande para soar bem. De resto, todos os instrumentos melódicos e vozes foram gravados no STOP e no Estúdio do Bandido”, conta-nos Serginho.

Instrumentos melódicos? Pois é, em Voa Pé, trocadilho que remete para a importância da “caminhada individual” e do sonho nas nossas vidas, os Retimbrar já não são só um grupo de percussão, mas sim uma banda capaz de aliar aos ritmos mais contagiantes (não é figura de estilo; torna-se mesmo complicado escutar boa parte dos temas sem pelo menos bater o pé) as mais deliciosas canções. A música tradicional portuguesa anda sempre por perto, mas Voa Pé tem de tudo um pouco, em doses apetecíveis que se renovam a cada escuta: sugestões de folk, jazz, fado e uma força criativa mutante que nunca se torna saturante, antes nos refresca a experiência.

Voa Pé, com capa de Manel Cruz, sai a 1 de abril e não é mentira: eis o caso raro de uma banda que soube transformar a força de rua num disco de estúdio igualmente excitante. Tal como um gato vadio que aprende a viver dentro de casa, os Retimbrar alternam graciosamente entre as várias “modalidades”: ao vivo, podem fazer uma arruada, dar um concerto mais escorreito ou apresentar um espetáculo especial, ao qual chamam Voa Pé, o Arraial. Mais raro devido à logística pesada, o próximo destes espetáculos acontece a 23 de abril, na Casa da Música, no Porto. Agarrem este gato, enquanto não volta para a rua.