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Os AC/DC deveriam acabar?

Qualquer dia – aparentemente mais próximo do que imaginaríamos – sobrará “apenas” Angus Young

Pouco devoto dos delírios da eletricidade no início da adolescência, siderado que estava com a música dos grandes figurões dos sixties (Beatles, naturalmente, à cabeça, mas também Mamas and Papas, Cat Stevens ou os Everly Brothers), só descobri os AC/DC aos 15 anos, numa viagem de estudo da Escola Secundária.

No autocarro, contavam-se anedotas ao microfone e os mais "à frente" mostravam a música do momento a toda a gente. Alternavam-se cassetes no autorrádio. Em 1992, era Guns N’ Roses (os intermináveis Use Your Illusion, dos quais preferia, contra a maré, a “Breakdown” e a “Shotgun Blues”), Metallica (o álbum preto, com a “Enter Sandman” logo a abrir e as miúdas a cantarem a “Nothing Else Matters”), Nirvana (o Nevermind a repetir não sei quantas vezes) e Ugly Kid Joe (ugh, porquê?). R.E.M. também, mas causando menos fervor.

Consigo determinar o meu primeiro contacto com os AC/DC na perfeição porque o álbum era AC/DC Live e persistiu dia e noite, durante meses, no top português. Ensimesmado e com uma cassete de Tubular Bells, de Mike Oldfield (que moderno!), no walkman, estranhei a chinfrineira no autocarro. Quando carreguei no stop, deparei-me com uma voz parecida com o som de uma trituradora, a cantar um refrão sobre a autoestrada para o inferno (eu, quando muito, era escadaria para o paraíso). Contra as expectativas, deixei-me ficar. E no dia seguinte pedi que me gravassem o CD para cassete porque o rock, afinal, era demoníaco mas bom.

O que eu não sabia, na altura, era que a voz aguda de Brian Johnson não tinha estado sempre lá e que a canção “Highway To Hell” nem tinha sido originalmente cantada pelo tipo que, no Top + da RTP, cantava de boina. Brian Johnson era o terceiro vocalista dos AC/DC, mas para mim era o primeiro. Não poderia ter havido outros.

Por estes dias, sabe-se que Brian Johnson pode ficar surdo se continuar na linha da frente dos AC/DC, a veterana banda que embarcou recentemente numa nova digressão. É sabido que é Angus Young quem mais firmemente carrega a tocha do grupo australiano, mas poderá uma "instituição" resistir à saída do homem que segura o microfone há mais de 35 anos? A favor da continuidade da “marca”, um argumento quase imbatível: foi com um novo vocalista, precisamente Brian Johnson, que os AC/DC chegaram ao seu maior sucesso, Back in Black, em 1980. Um feito notável conseguido imediatamente a seguir à morte de Bon Scott, a carismática voz de “T.N.T” e, claro, “Highway to Hell”.

Se se confirmar a saída de Brian Johnson e, ainda assim, o rock continuar na estrada, a formação dos AC/DC que veremos em Portugal, a 7 de maio, será bastante diferente daquela que, em 2009, se apresentou no Estádio Alvalade XXI. Desde então, as baixas sucederam-se: o guitarrista Malcolm Young tem uma doença crónica, o baterista Phil Rudd está a braços com a justiça, e agora Brian Johnson pode ser obrigado a “arrumar as botas”. Sobram Angus Young, o “maestro” de sempre, e Cliff Williams, o baixista britânico que integra a banda desde 1977. Chegará para manter vivo o mito da indestrutibilidade rock and roll que os AC/DC desde sempre preconizaram? – é, pelo menos, difícil sustentá-lo. Ou, pelo contrário, será uma boa altura para reconhecer o fim de uma longa era?