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Cinco discos de George Martin sem os Beatles

Apesar de ter conquistado pelo trabalho com os “fab four” o seu lugar na história, o produtor George Martin, que morreu esta semana, aos 90 anos, assinou outros momentos também relevantes.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Teriam sido os Beatles os mesmos sem George Martin? E seria George Martin o produtor de quem hoje se recorda tão importante lugar na história da música gravada se o seu caminho não tivesse cruzado com o dos fab four em 1962? A verdade é que viveram em conjunto anos a fio de gravações que ajudaram a fazer história. E foi ele, um ainda relativamente jovem produtor ao serviço da Parlophone (uma etiqueta da EMI que por essa altura tinha George Martin como responsável), quem lhes deu ouvidos quando, até então, todos os outros profissionais de editoras discográficas a quem tinham batido à porta lhes tinham dado um não. Uma série de “nãos” que certamente deram depois valentes dores de cabeça a quem os proferiu... Pois George Martin foi o autor do “sim” que ligou os Beatles à Parlophone, com quem iniciaram em 1962 uma carreira que deles faria um dos casos maiores da história da música. O primeiro encontro nem o entusiasmara particularmente pela música que os quatro rapazes de Liverpool lhe mostravam. Mas o humor, o carisma, cativou-os. George Harrisson comentou logo que não gostava da gravata do produtor. Foi o “clic”... A música, adiante, falaria mais alto.

George Martin, que esta semana nos deixou, aos 90 anos, teve de facto na sua longa relação discográfica com os Beatles os momentos mais marcantes da sua obra. Produziu praticamente todos os seus discos, abriu a música da banda a novas possibilidades tímbricas (foi ele, por exemplo, quem sugeriu o recurso a um quarteto de cordas em “Yesterday”) e às novas potencialidades que o trabalho em estúdio poderia levar à sua música. E, já ele estava retirado, acedeu ao desafio do Cirque du Soleil para criar a banda sonora de “Love”, o espetáculo baseado em canções dos Beatles que está ainda em cartaz em Las Vegas.

Manteve-se ligado a alguns ex-elementos do grupo após a sua separação em 1970, produzindo logo nesse ano o álbum de estreia de Ringo Starr (que em 1962 não deixara tocar bateria, relegando-o às maracas e pandeireta numa das sessões de gravação de “Love Me Do”), nos anos 80 reunindo-se a Paul McCartney para, de seguida, gravar os álbuns Tug of War (1983), Pipes of Peace (1983) e Give My Regards To Broad Street (1984). E entre a discografia que registou em nome próprio, sobretudo com a George Martin Orchestra, revisitou por diversas vezes canções dos “fab four”... Porém, nem toda a obra de George Martin se esgota na colaboração com os Beatles. Houve um antes. Um durante (que assistiu a várias outras parcerias). E um depois... Recordemos então cinco discos que contam parte da história de George Martin, mas sem os Beatles por perto.

1952. “Mock Mozart”, de Peter Ustinov

Foi no universo da comédia que George Martin marcou os seus primeiros pontos, definindo até por esses caminhos alguns dos episódios de maior sucesso da Parlophone antes da entrada em cena dos Beatles. Tinha ele terminado a sua formação na Guildhall Scholl of Music and Drama quando, em 1950, encontrou emprego na divisão de música clássica da EMI. Colocaram-no na equipa da Parlophone e, dois anos, depois, dirigia em estúdio esta paródia, com Peter Ustinov, a memórias da música de Mozart. A gravação dividia opiniões internamente e havia quem achasse que não se deveria editar em disco. A verdade é que o foi. Gerou um sucesso. E descendência. George Martin estava lançado.

1963. “How Do You Do It?”, dos Gerry and the Pacemakers

Antes de ter dado o “sim” na histórica audição com os Beatles no verão de 1962 e de os ter levado novamente a estúdio para gravar, pouco depois, o seu primeiro single, George Martin, mesmo tendo Cole Porter ou Maurice Ravel como referências pessoais, mantinha, por razões profissionais, uma atenção para com o que estava a acontecer no agitado panorama pop/rock britânico na alvorada dos anos 60. Conhecia o universo do skiffle e, de Liverpool, além dos Beatles, chamou também para o seu estúdio os Gerry & The Pacemakers com quem, poucas semanas depois de registar o primeiro número um assinado por Lennon e McCartney (com Please Please Me), regressou em abril de 1963 à posição mais alta da tabela de singles no Reino Unido com o primeiro single desta outra banda da mesma cidade e com a qual manteria também uma ligação em estúdio, embora sem a dimensão da que foi, ao mesmo tempo, definindo com os Beatles.

1964. “Goldfinger”, de Shirley Bassey

Um ano depois de ter tido uma opinião decisiva no casting de Matt Munro para ser a voz da primeira Bond Song, em “From Russia With Love”, George Martin era escolhido para produzir a canção seguinte (que acabaria por definir o paradigma da música ao serviço do agente secreto 007). Com música de John Barry e letra de Anthony Newley e Leslie Bricusse, “Goldfinger” seria a primeira das três canções que Shirley Bassey interpretaria para James Bond (regressando mais tarde em “Diamonds Are Forever” e “Moonraker”). A canção abria também a George Martin um relacionamento com 007, que teria ainda maior visibilidade em Live and Let Die, filme de 1974 para o qual produziu a canção cantada por Paul McCartney, assinando depois o score orquestral da banda sonora.

1974. “Apocalypse”, pela Mahavishnu Orchestra

Projeto de fusão entre os universos do jazz e do rock, a Mahavishnu Orchestra fora fundada em 1971 sob a liderança de John McLaughlin, envolvendo entre outros o checo Jan Hammer (que nos oitentas assinaria o tema de “Miami Vice”). Em 1974, ao lançar uma segunda formação da banda, na qual participavam, entre outros, Jean Luc Ponty ou Narada Michael Walden, George Martin foi chamado para assinar a produção de “Apocalypse”, álbum com ambição de outro fôlego, em cuja gravação participou ainda a London Symphony Orchestra, sob direção do maestro Michael Tilson Thomas, que também toca piano no disco. George Martin falou por diversas vezes deste álbum como tendo sido um dos melhores de toda a sua discografia.

1984. “Quartet”, dos Ultravox

Uma das mais importantes parcerias de George Martin nos anos 80, além das várias sessões em estúdio que o voltaram a ligar a Paul McCartney em vários discos, foi a que o juntou em 1982 aos Ultravox, para criar o álbum Quartet. O grupo, nascido em meados dos anos 70, então com John Foxx como vocalista, tinha assinado importantes manifestações pioneiras de recurso às electrónicas num contexto pop, mas na verdade poucos tinham dado por isso. A saída de Foxx e a entrada de Midge Ure desviou o curso da música, começando a nova vida da banda por caminhar entre as demais do movimento “new romantic”, o que aconteceu entre os álbuns Vienna (1980) e Rage in Eden (1982). Em busca de novos horizontes, sonhando com uma pop de dimensão mais épica e de identidade clássica, os Ultravox chamaram George Martin, com ele criando um dos melhores títulos da sua discografia.

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