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José Carlos Carvalho/Expresso

Presidente Marcelo dá música logo no primeiro dia

Nunca houve um Presidente assim. Até hoje, nenhum outro ofereceu um festival de música no dia da posse. Mas que música é esta, aquela que nos dá Marcelo?

É certamente música oficial. Quem fez as contas, garante que nas cerimónias oficiais se ouvirá, pelo menos, seis vezes o Hino de Portugal. A última das quais na entoação de Mariza. Faz sentido: Mariza é das fadistas portuguesa com maior reconhecimento não só entre fronteiras mas também lá fora, onde atuou nas mais prestigiadas salas de espectáculos de Nova Iorque, Londres, Paris ou Sydney. É, se quisermos, a nossa bandeira no que à música popular diz respeito. É também um clichê, o fado fica sempre bem nestas ocasiões. Como esquecer Kátia Guerreiro nos dois mandatos de Cavaco Silva, o antecessor de Marcelo?

Mas há mais, muito mais, na Praça do Município, em Lisboa, logo depois do tiro de partida que Mariza dará lá pelas 20h de hoje. Segue-se um cartaz capaz de dar corpo a um autêntico festival de música nacional. Ou de língua portuguesa. As escolhas não são, porém, inocentes. Antes pelo contrário. José Cid, o grande melodista português, é o fator transversal, capaz de cruzar gerações. Não há muitas dúvidas de que Cid é o autor do maior número de músicas conhecidas pelos portugueses. Fica bem, numa cerimónia assim, a iniciar o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. E a provar que não há escolhas descabidas, segue-se Paulo de Carvalho, a voz. Presente certamente por ser o intérprete da senha que espoletou o 25 de Abril. Também a sua participação tem um significado óbvio.

Menos consensual será, porém, a escolha de Pedro Abrunhosa. Quem não se lembra do buzinão e das críticas que o vate do Norte tecia naqueles dias ao então primeiro-ministro Cavaco Silva. Para a história ficará o concerto, nesses dias de raiva e nas imediações da Ponte sobre o Tejo, em que Pedro Abrunhosa incitava a turba a responder à questão “e o Cavaco e a Maria o que têm que fazer?”. A resposta, naquele tempo, vinha pronta na língua: “Talvez F****” gritava-se. Será esta a forma mais elegante de Marcelo descolar do seu antecessor?

Diogo Piçarra e os HMB são escolhas óbvias para atrair a população mais jovem. Aquilo que Júlio Isidro chamaria certamente de “malta da pesada”. Mas há dúvidas de que seja mesmo assim Por fim, Anselmo Ralph fecha o dia, ou neste caso a noite, tal como Marcelo iniciou o seu discurso de tomada de posse. Com uma referência clara à gesta dos descobrimentos, aqui representados pelo cantor angolano. Mas depois de serem gastos todos estes trunfos, como será para o ano? Ou no 10 de Junho? Ou quando Marcelo, lá para daqui a cinco anos, tomar posse pela segunda vez?