Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

Back to Mono?

Pegando no título de uma famosa retrospectiva da obra de Phil Spector, Rui Miguel Abreu olha hoje para o Tidal, PJ Harvey e John Parish, para o vinil, para o CD, para Kanye West, Kendrick Lamar, para o stereo e para os novos paradigmas de qualidade sonora

Ontem, Kanye West veio dizer que The Life of Pablo não deverá sair em CD, que já a capa de Yeezus era uma espécie de “caixão aberto” do formato. Hoje mesmo, o meu amigo Manuel Rodrigues, colaborador habitual da BLITZ que é também técnico de som, apontava num post no seu mural de Facebook para o que considera serem deficiências na masterização do novo álbum que o planeta inteiro tem ouvido apenas em streaming através do Tidal, plataforma que tem como argumento principal a suposta qualidade sonora elevada dos ficheiros que disponibiliza.

Paralelamente, ao trabalhar numa entrevista com John Parish em que se aborda o novo álbum de PJ Harvey, que coproduziu juntamente com Flood, encontro palavras de apoio ao tradicional formato do álbum e à seriedade da experiência de audição, “sobretudo em vinil”, como explica o músico e produtor.

Do cruzamento das declarações de duas pessoas tão distintas quanto Kanye West e John Parish resulta o óbvio: encontramo-nos numa encruzilhada histórica. Não é uma simples questão de mudança de formatos e não se pode comparar à época em que o vinil quase desapareceu esmagado pela chegada do CD (o tal formato a que Yeezy já fez o funeral, com direito a caixão aberto e tudo).

O paralelo mais apropriado para esta encruzilhada que encontro ao olhar para a história da indústria discográfica talvez seja o da chegada do som stereo, em finais dos anos 50. Nessa época, impôs-se, lentamente, um novo paradigma que implicava uma nova perspectiva de audição e até novo equipamento. Mas, claro que o mono dominou ainda durante muito tempo.

Caso sintomático foi o dos Beatles, que na primeira metade da carreira, sensivelmente, ainda privilegiaram as edições mono do seu material, pouca atenção dando às primeiras misturas stereo que os engenheiros da EMI iam fazendo para satisfazer um mercado ainda em crescimento. No início, na verdade, nem se percebia muito bem as possibilidades totais do alargamento do espectro sonoro. Algo de semelhante parece acontecer agora: será que a preocupação de Kanye foi a de perceber como resulta o seu novo disco quando ouvido num telemóvel, por oposição à audição tradicional num sistema de som convencional?

A conclusão óbvia, mesmo desconhecendo-se as intenções técnicas do rapper e sendo clara a fé de alguém como John Parish ou PJ Harvey – a de que o formato álbum ainda tem razão de ser e de que suportes tradicionais como o vinil continuam a garantir a melhor experiência áudio possível – é a de que por um tempo, pelo menos, várias possibilidades vão coexistir.

Houve um tempo em que a indústria teve que ir acomodando o crescente mercado dos “papás” que adoravam o stereo e as suas novas aparelhagens, enquanto iam beneficiando do mercado mais adolescente que não vislumbrava para lá do pequeno gira-discos portátil com que no chão do quarto escutava os singles que estavam no top. A diferença mais significativa era que nesse tempo, a realidade mono era a que os engenheiros e os artistas pareciam privilegiar, pelo menos ao início. Só depois o mercado se rendeu ao stereo. Quase de certeza que caminhamos para a realidade inversa e cada vez mais os discos serão misturados e masterizados a pensar em pequenos auscultadores brancos e colunas minúsculas de telemóveis ou tablets. E em breve, o stereo expansivo com que vivemos nas últimas décadas poderá desaparecer.

Enquanto isso não acontece, e mesmo usando o Tidal para ouvir o novo e brilhante trabalho de Kendrick Lamar – que nem de propósito tem por título Untitled Unmastered - acabo de me entusiasmar com a notícia de que estará para breve a edição de uma caixa de vinil retrospectiva de Marvin Gaye. É sempre bom, se possível, manter os ouvidos sintonizados nas duas realidades... Não se pode viver só no passado, nem se pode viver só no presente. Não quando se ama a música. Toda a música.

  • O CD faz hoje 33 anos. Parabéns CD!

    Opinião

    Rui Miguel Abreu dá os parabéns a um formato que já esteve em coma, mas que teima em resistir, seja em edições artesanais ou em edições de luxo absoluto. Duas faces de uma mesma moeda. Prateada, claro

  • Quanto mais negra a amora...

    Opinião

    ...mais doce o sumo, diz o ditado, mas a América tem tido alguma dificuldade em engolir o que artistas como Beyoncé ou Kendrick Lamar têm feito nos últimos tempos, aproveitando a visibilidade conseguida com as suas carreiras artísticas