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De Caetano Veloso a Gabriel o Pensador: o direito de (não) boicotar

Roger Waters apelou a Caetano Veloso e Gilberto Gil que não visitassem Israel; Gabriel o Pensador foi convidado a boicotar festival em Angola. Falámos com Caetano sobre o assunto

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em janeiro tive a oportunidade de entrevistar Caetano Veloso. Por email, é certo, mas basta passar os olhos pelas quatro páginas de respostas para perceber que tamanha eloquência e elaboração só ao brasileiro poderão pertencer.

Entre outros assuntos, que poderão ver debatidos na próxima edição da BLITZ, ocorreu-me perguntar por que razão Caetano Veloso pareceu voltar atrás na sua posição quanto a atuar ao vivo em Israel. No ano passado, recorde-se, Veloso e Gilberto Gil levaram a sua digressão Dois Amigos, um Século de Música a várias cidades europeias e também a Telavive, decisão que Roger Waters, o músico para sempre associado aos Pink Floyd, tentou reverter.

Crítico acérrimo do Estado de Israel, o britânico apelou à histórica dupla que levasse em consideração determinadas práticas do Governo de Nethanyahu, nomeadamente em relação ao povo palestiniano, e que, à luz da sua própria trajetória política e social, cancelasse o concerto. “Tropicalismo não combina com apartheid”, lia-se num abaixo-assinado online que reuniu milhares de assinaturas. Os argumentos foram escutados e “considerados” (expressão de Gil, antigo Ministro da Cultura do Brasil), mas os dois amigos levaram mesmo o seu século de história conjunta a Telavive.

No regresso não só de Telavive como da restante digressão, que passou por Portugal para um concerto no EDP Cool Jazz, Caetano Veloso, que à mestria na música alia uma incrível facilidade na escrita, partilhou uma longa prosa no Folha de São Paulo, explicando porque, em princípio e depois do que viu em Israel, provavelmente nunca mais voltará àquele país. “Gosto de Israel fisicamente. Telavive é um lugar meu, de que tenho saudade, quase como tenho da Bahia. Mas acho que nunca mais voltarei lá”.

Questionado, então, sobre esta mudança de posição, Caetano Veloso explicou à BLITZ que, quando leu os primeiros argumentos de Roger Waters, o considerou “muito agressivo e arrogante. Mas a ida a Susya [pequena aldeia histórica palestiniana] com o grupo [de ativistas] Breaking the Silence significou uma virada nos meus sentimentos em relação a Israel. Amo Israel e tenho por Telavive um carinho especial. Mas o que ouvi dos membros do Breaking the Silence e vi nos territórios ocupados fez-me querer deixar claro que, embora não me identifique de todo com o [boicote] BDS, é preciso que em cada canto do mundo se saiba que as políticas do Estado de Israel não são admissíveis”.

Operando a habitual magia com as palavras, mesmo numa entrevista, Caetano diz que continua “amando o que é em Israel amável”. Igual fidelidade afetiva garante Gabriel o Pensador, que este fim-de-semana foi uma das atrações internacionais de um festival em Luanda. Rapidamente um grupo de ativistas angolanos tentou, também, demovê-lo de participar no evento, chamando a atenção do rapper brasileiro para a existência de presos políticos no país. “Gabriel o Pensador inspirou uma geração de rappers de intervenção social e política de Angola. Alguns desses artistas estão hoje presos por defender as mesmas ideias que você vem apregoando e, seguramente, um posicionamento público de um artista com a sua trajetória, condenando as restrições de liberdade e violações dos direitos humanos a que são diariamente sujeitos, lhes traria algum alento”, argumentaram.

Na resposta, o homem de “Tô Feliz (Matei o Presidente)” justificou-se: o concerto iria mesmo para a frente, sem que com isso quisesse menorizar as lutas travadas por ativistas como Luaty Beirão. “As histórias de injustiças, dificuldades e problemas são muitas, no meu próprio país e em todos os lugares por onde passo, infelizmente, e as minhas músicas podem contribuir como sementes ou adubo para o florescer de um mundo mais livre, com mais liberdade de opinião e manifestação, menos violência e abuso de autoridade, mais respeito, mais dignidade”, acredita Gabriel o Pensador, salientando ainda que o festival Sons do Atlântico, onde marcou presença, foi organizado por um promotor privado, e não pelo “regime político de Angola”.

Talvez, à semelhança do que fez Caetano Veloso, o carioca aproveite a ida a Angola para conhecer de perto as situações para as quais os ativistas quiseram alertá-lo. Talvez, como o seu compatriota, decida no regresso ao Brasil escrever sobre as mesmas, ou até mesmo transformar a sua experiência num novo tema, reativando uma veia política que nunca lhe foi estranha. Importante será, acima de tudo, usufruir desse direito que nos assiste em democracia: a liberdade de escolher.