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O Rock in Rio é indie?

Esta semana foi anunciada a programação do segundo palco do festival lisboeta. Haverá um micro-Paredes de Coura dentro do Parque da Bela Vista?

Até à edição de 2012 do Rock in Rio-Lisboa, ao elenco de figuras estelares do palco principal, denominado Mundo, juntavam-se concertos que, habitualmente, abordavam cumplicidades luso-brasileiras num segundo espaço batizado de Sunset. Eram concertos que decorriam antes de o sol se pôr, num reduto infinitamente menos vasto do que o relvado do cenário maior. Era uma espécie de sala de visitas para quem tinha acabado de chegar, o que em festivais que se fazem pagar com passe geral (não acontece, ressalve-se, com o Rock in Rio) seria, provavelmente, designado de “warm-up” e equivaleria a um dia de arranque.

Creio que a memória coletiva não guardou os encontros do Palco Sunset. Centremo-nos no ano em que este modelo terminou. Alguém recorda com particular saudade o encontro de Rita Redshoes com Moreno Veloso? De Rui Veloso com Erasmo Carlos? De Mafalda Veiga com Marcelo Jeneci? Não quero com isto dizer que estes tenham sido concertos desastrosos ou “para esquecer”. Mas ficaram esquecidos, na medida em que não cabem no livro de honra da edição portuguesa de um festival gigante como o Rock in Rio, desenhado para oferecer momentos inesquecíveis, para “fazer acontecer” algo com impacto que não conhecerá repetição.

O Palco Sunset já não foi montado em 2014, mas o espaço não ficou entregue ao abandono. No seu lugar, surgiu um novo palco com a chancela da Vodafone (patrocinadora principal do evento). A investida na música da Vodafone, além da ligação forte ao Rock in Rio, passa também pela rádio Vodafone FM e pelo patrocínio (e naming) dos festivais de Paredes de Coura e Mexefest, em Lisboa. Tanto a estação de rádio como os festivais têm, assumidamente, uma orientação que, nos anos 90, designaríamos de “alternativa”. Isto é, servindo-nos do slogan da finada X-FM, destinam-se a uma “imensa minoria”.

E é assim que em 2014 o Palco Sunset se transforma em Palco Vodafone, com uma programação estilisticamente distanciada da “corrente principal” do palco Mundo. A abertura foi, de resto, assumida: “Esta é a primeira vez que uma marca toma conta de um dos palcos do evento. A Vodafone é a primeira marca a patrocinar um palco do Rock com esta envergadura na Cidade do Rock, e a desenvolver toda a sua programação”, afirmou à época Roberta Medina, Vice-Presidente Executiva do Rock in Rio. Pelo pôr-do-sol do Parque da Bela Vista passaram Blood Orange, Wild Beasts, Capitão Fausto e Linda Martini, entre outros. E mesmo os concertos menos sonantes estiveram muito longe de estar às moscas.

Este ano, mantém-se o ritmo de dois concertos ao fim da tarde e a orientação indie. E nomes que teriam destaque em qualquer dos (grandes) festivais alternativos do panorama nacional, seja o NOS Primavera Sound portuense ou o supracitado Vodafone Paredes de Coura. E que deslustrariam pouco ou nada no segundo palco do mais abrangente NOS Alive. Black Lips, Real Estate, Boogarins, Metz ou as sensações espanholas Hinds são “estado da arte” do indie (rock), nomes a que é associada uma coolness hip que o Rock in Rio não imaginaria abraçar há – não vamos mais longe – seis anos. Juntam-se-lhes os nomes mais irresistíveis do novo rock (e derivações) feito por cá, como Keep Razors Sharp, Sensible Soccers, Glockenwise e Capitão Fausto. E uma figura hoje quase tutelar da “música moderna” em português, B Fachada, que tendo começado por ser “filho”, já hoje é visto como “pai”.

É certo que tudo isto acontece em cinco dias, ao ritmo de dois concertos por tarde, e com um preço de bilhete diário que é o mais caro cá do burgo – o Rock in Rio não é, nesse sentido, um festival como os outros. Mas respondendo à questão, sim, o Rock in Rio é indie. E, se bem repararam, também não deixa de ser rock. Que outros mitos será capaz de derrubar?