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Rolling Stones em Cuba: diplomacia e negócio

A atuação que os Rolling Stones irão brevemente levar a Havana não representa o foco de surpresa das atuações de Jean Michel Jarre ou dos Wham na China nos anos 80. Mais do que uma manifestação política, aqui abre-se um mercado

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há alguns meses Mick Jagger andava por Cuba. Poderia, como tantos outros estrangeiros, estar apenas ali de férias. Mas na verdade estava em missão de procura de um lugar. Um lugar para que agora, em data a anunciar (mas que se sabe já que será na altura da Páscoa), se realize em Havana um primeiro concerto dos Rolling Stones. A banda, que neste momento está já no segmento final da Olé Tour, entre vários palcos da América Latina, terá em Cuba uma data para além do dia 17 de março inicialmente definido como o ponto final desta digressão. Não é apenas uma data extra a acrescentar a uma agenda. É uma atuação de uma das bandas mais icónicas da cultura pop/rock ocidental, numa capital que vive de facto sinais de abertura. Com mais ou menos cosmética diplomática, a atuação vai decorrer nos espaços de um velho complexo desportivo erigido em 1957. E se para o poder cubano representa um momento de comunicação para toda uma nova narrativa política e social, para os Rolling Stones, que apesar da memória de, por exemplo, um “Street Fighting Man” (de 1968), estão há muitos anos longe de ser a mais politicamente ativa das bandas do hemisfério rock’n’roll, a jogada garante-lhes não apenas visibilidade global para uma atuação local, como lhes abre mais um mercado. E entre diplomacia e negócios, assim se exporta a política do rock’n’roll.

Se excetuarmos o ineditismo do concerto dos eslovenos Laibach em Pyongyang (Coreia do Norte) no ano passado, longe vão contudo os tempos em que uma atuação num estado do outro dado das fronteiras ideológicas fazia notícia catalisadora de atenções maiores. A digressão chinesa de Jean Michel Jarre em 1981 deu brado e até mesmo um álbum ao vivo que na altura fez história. Instrumental, a música não causaria incómodos maiores. E assim foi. Seguiram-se, também na China, os Wham!, em 1985, naquele que foi o primeiro concerto pop em língua inglesa por aqueles lados. E após 18 meses de negociações, letras a cantar “wake me up before you go go” ou “everything she wants” não causaram incidentes maiores. Tal como com Jean Michel Jarre, houve um registo em VHS documentando o feito. Curiosamente ambos os documentários ainda não chegaram à era dos suportes digitais. E são peças algo esquecidas na história da diplomacia pop/rock em terrenos cultural e politicamente feitos de outras tradições e agendas.

Com o tempo, as fronteiras foram cedendo mais frequentes passagens a vozes da cultura ocidental. Mas nem tudo foi sempre pacífico. E se em 1998 Björk gerou algum frisson quando juntou uma menção ao Tibete no tema “Declare Independence” quando se apresentava em palco em Xangai, também aos Kraftwerk foi negada no ano seguinte uma autorização para atuar dado que também eles tinham demonstrado posições pró-tibetanas.

Os Rolling Stones não enfrentarão agora em Cuba barreiras de crivo tão apertado como aquelas pelas quais tiveram se submeter a aprovação o alinhamento para a sua primeira atuação na China, há precisamente dez anos. Foram-lhes vetadas canções como “Brown Sugar”, “Let’s Spend The Night Together”. E quando voltaram, anos depois, foi a vez de “Honky Tonk Woman” ver um não.

Convém lembrar que os Stones não serão a primeira banda pop/rock ocidental a atuar em Cuba. Em 2001, os Manic Street Preachers abriram portas a um relacionamento pouco entusiasmado do poder castrista com o rock’n’roll. Mas ao contrário dos Rolling Stones, havia nesta outra banda galesa uma simpatia política mais evidente com o regime. E o próprio Fidel Castro compareceu na plateia do Teatro Karl Marx. Agora, a diplomacia pop/rock estará menos focada na partilha de ideias, preferindo certamente explorar antes as consequências económicas do concerto dos Stones. E esse é um jogo em que todos ali têm a ganhar.