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Música versus Cinema: quem dá os melhores prémios?

Os Óscares encerram, tradicionalmente, a temporada de prémios. Um par de semanas antes acontecem os Grammys. Serão estes apenas um aquecimento para a grande noite do cinema?

Em novembro, já a imprensa vai lançada na eleição dos melhores do ano. E daí em diante há cerimónias para todos os gostos, ora de cariz mais global, como os prémios da MTV, ora de teor nacional espalhadas um pouco por todo o planeta. As galas de entrega de prémios, com todos os defeitos que possamos encontrar, são sempre uma ocasião para reunir correligionários, nos casos mais paroquiais, ou pretexto para um “come together” da indústria, quando a coisa pia mais fino. A “saison” termina, depois de Emmys, Brit Awards, BAFTA, American Music Prizes e quejandos, na última semana de fevereiro. É aos Óscares que compete fechar a temporada da (auto) congratulação. É o grand finale. E dias antes acontecem os Grammys, com menos pompa e também menor circunstância. Continua a música a ser o parente pobre do cinema?

Se respondermos curto e grosso, é óbvio que sim. As audiências, o impacto nos media ou o frisson dos Óscares permanece imbatível ao fim de 88 edições dos prémios da Academia das Artes do Cinema. Porém, entre os dois eventos há ainda uma diferença enorme: tradicionalmente, os Grammys premeiam quem já foi agraciado pelas vendas. Para os tipos que votam, quem merece ganhar é quem já conquistou os favores do público. Já nos Óscares, a coisa não é exatamente assim. Historicamente, os Óscares fazem vender os filmes, sobretudo fora dos Estados Unidos da América. E então, tudo muda de figura. Mas para não fugir à questão, é preciso sublinhar que apesar de a grande noite da música não ter a mesma “panache” daquela em que se celebra o cinema, ela é cada vez mais importante.

Por várias razões. Não só os Grammys começam a ter uma influência muito maior nos media como - e aqui é que a porca torce o rabo - há cada vez mais música nos Óscares. Uma coisa e a outra são cada vez mais indistintas. E olhando para o que se passou este ano, é impossível não notar que a prestação de Lady Gaga nos Óscares foi um dos momentos da noite. Que a “gaffe” de Sam Smith continua a marcar os noticiários dois dias depois. Que para ilustrar o In Memoriam, um dos momentos mais dramáticos da grande noite do cinema, foi escolhido Dave Grohl. Ou que entre os apresentadores e entregadores de prémios há, cada vez mais, personalidades ligadas à música como Pharrell Williams e Quincy Jones. É um facto: há cada vez mais música no cinema.

E há, sobretudo, uma vantagem que quase se pode considerar uma superioridade moral. No contexto do advento digital, foi a música quem mais rapidamente se desembaraçou e soube abraçar esse desafio. Depois de década e meia em crise degenerativa, o crescimento da faturação, devido ao streaming, eleva as receitas do negócio para níveis similares aos de há seis anos. Não é líquido que o mesmo esteja a suceder no cinema, onde os grandes argumentistas e realizadores passaram para as séries de TV, e destas pularam para a televisão não linear, servindo agora a programação da HBO, Netflix ou Amazon. A sala de cinema transforma-se, a cada dia que passa, num recreio da escola, retirando à indústria do cinema aquilo que mais se parecia com o “ao vivo”, com o ver filmes em público, ao lado dos outros, numa sala escura. Exatamente o processo contrário ao da música, em que a indústria do espectáculo prospera com a proliferação de festivais e grandes concertos.

Se a música ainda perde para o cinema nas grandes cerimónias, a verdade é que não fez cerimónia nenhuma em abraçar o futuro. E um dia, que já não vem longe, o cinema vai ter que resolver essa questão.