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Trainspotting está de volta e os Underworld também

A banda de “Born Slippy” está de volta com um belo álbum, desenterrando as memórias de Trainspotting, que também este ano regressa ao grande ecrã

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A prova de que nem sempre temos de nos identificar com a inspiração de uma obra, seja ela um disco, um filme ou um livro, para a ela aderirmos sem reservas, pode muito bem passar pela minha veneração pelo filme Trainspotting. Lembro-me de, incentivada pelos elogios que o Álvaro Costa lhe tecia nas noites da Antena 3, me ter dirigido em ânsias aos cinemas do Arrábida Shopping, em Gaia, para perceber a razão de tanta euforia. Lembro-me também de ter chegado em cima da hora e, por isso, ter assistido à obra-prima de Danny Boyle na primeira fila, com todas as cenas mais grotescas ampliadas, em tamanho e impacto, pela proximidade do grande ecrã. Nos meses que se seguiram terei revisto o filme vezes suficientes para saber várias passagens de cor e até hoje – 20 anos se passaram já… – continuo a vibrar com as aventuras daqueles heroinómanos, sem que praticamente qualquer uma das suas experiências tenha feito parte do meu trajeto.

Fantasia distópica e muito pouco higiénica, talvez Trainspotting só pudesse ter tido o peso e a importância que teve numa década como a de 90. Os seus méritos, contudo, permanecem a meu ver inabaláveis: de um livro fascinante mas caótico como a obra homónima de Irvine Welsh, Danny Boyle conseguiu extrair as personagens mais apaixonantes, que entregou a um elenco de absurdo carisma num filme que, espelhando esteticamente a era em que foi produzido (estreou em 1996), é até hoje estranhamente atraente. E depois, ou durante, ou até mesmo antes, há a música. A banda-sonora de Trainspotting fez muito mais do que musicar cenas ou acompanhar personagens: com canções de Iggy Pop e Brian Eno, Blur e Primal Scream, Pulo ou New Order, eis uma trilha que é tão central como as próprias imagens. Desde que vi o filme pela primeira vez que “Lust For Life” é Mark Renton correndo rua abaixo, demente e frenético, depois de uma qualquer malfeitoria; que “Perfect Day” é indissociável da angélica overdose deste anti-herói superiormente encarnado por Ewan McGregor, ou que “Sing”, dos Blur, me traz o arrepio da tenebrosa cena da morte de um bebé, por aparente negligência dos pais alienados.

Em Trainspotting, a música é o filme, e as canções são as personagens. Tamanha correspondência entre som e imagem só podia conduzir a um final – amoral, claro está – sublimado pelo transe libertador de “Born Slippy”, dos Underworld. Em 1996, a banda de Karl Hyde e Rick Smith já há muito batalhava por um lugar ao sol, facilitado pela inclusão daquele tema na banda-sonora de uma das fitas mais icónicas da década (“Born Slippy”, o single, terá sido comprado por mais de um milhão de pessoas). Mas nem por isso a banda inglesa passou a viver dos louros, mantendo-se ativa e relevante até aos dias de hoje.

Sabendo do meu afeto pelo Trainspotting e por “Born Slippy”, um colega de redação chamou-me em janeiro a atenção para “I Exhale”, primeira faixa do novo álbum dos Underworld, Barbara Barbara we face a shining future, e descobri-lo tem sido um prazer que espero ver repetido quando, algures no final deste ano, Danny Boyle apresentar ao mundo a sequela do filme que começou por fazer a sua fama.

Se não precisamos de ser toxicodependentes para amar um filme sobre viciados em heroína, é reconfortante falar com o frontman dos Underworld e descobrir em Karl Hyde um apaixonado por cidades, pelas suas pessoas, pelos ritmos que nos levam de casa para o trabalho todas as manhãs, daí para outro lado qualquer à noite. Na entrevista que tive oportunidade de lhe fazer, na passada sexta-feira, o autor das letras do grupo que está junto há mais de 30 anos explicou que do seu método de trabalho faz parte sentar-se, todas as manhãs, num café, onde observando os demais clientes e transeuntes, escreve durante uma hora. Berlim e Nova Iorque são dois dos seus poisos prediletos, contou-nos, lamentando a gentrificação de Londres, metrópole que já não o inspira tanto como outrora, e contando ter estado recentemente em Lisboa, onde tem muitos amigos (algo que, de resto, documentara discretamente no seu curioso site). Aos 58 anos, Karl Hyde é um veterano da música eletrónica perpetuamente atento, desperto e entusiasta. Todas estas virtudes respiram maravilhosamente em Barbara Barbara we face a shining future, e saber que estas foram as últimas palavras que o pai de Rick Smith, a outra metade dos Underworld, disse à mulher, Barbara, antes de morrer, só me faz gostar mais de um disco tão eclético como humano.

Receios aparte, venha daí o novo Trainspotting, onde “I Exhale” poderia muito bem fazer as vezes de “Born Slippy” (Karl Hyde não se quis alongar sobre as probabilidades de a colaboração se vir a repetir, mas foi confirmando que trabalhar com o realizador é sempre uma prioridade). Se a inspiração dos Underworld contagiar Danny Boyle e o elenco reunido 20 anos depois, podemos já começar a sorrir por antecipação.