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Doutor, preciso de ajuda: padeço de psicadelismo

“Vai ter de viver com isso”, dizem os especialistas

Os brasileiros escrevem psicodelismo e, numa ida ao médico, a coisa fará mais figura. Mas não menorizemos os sintomas. Disse ontem Andrew Weatherall a Alex Petridis: “Aqui estamos nós no limiar da ilusão punk rock, a democratização da arte, toda a gente consegue fazer isto – mas que faca de dois gumes acabou por se tornar, não?”. A discussão não é nova nem me parece que vivamos o tal sonho punk apenas desde ontem à noite. A alusão à faca de dois gumes é, contudo, inteligível: percorremos, de facto, uma era em que paira a ilusão de que há tudo ao mesmo tempo e os mais niilistas creem que as sumidades que dividem o bem do mal têm voz rouca. É uma barafunda, pensará Weatherall.

Mas da mesma forma que o “apanhado na rua” da Time Out, vindo de um “flea market”, se revelou futebolista do Trofense e acabou a descrever o seu estilo como não alternativo, mas sim “vintage, hippie e grunge” (crê-se que na Trofa do século XX fosse apelidado de “maluquinho”), também a música pode ser, hoje, aquilo que bem entender. A aparente confusão é a norma do futuro.

Nos anos 90 do século passado descobrimos nos Olivia Tremor Control (what is to fear when surrounded in apathy / when putting down words is just like pulling teeth away) e nos Brian Jonestown Massacre uma “armada” freak que – questionavam-no os estetas do futuro, parecendo ignorar que isto, como as farpelas, anda sempre às voltas – se servia de uma releitura fidedigna do passado para emitir disparos rumo a um futuro às escuras. Pregar no deserto ontem é ser seminal amanhã.

O rock psicadélico, visto nos anos 90 como revisitação anacrónica (veja-se como os Kula Shaker foram recebidos de forma muito mais hostil do que, mais recentemente, os Temples), é hoje uma indústria com as suas editoras e os seus festivais (e, a propósito, vamos salivar com este?). Com as suas bandas prolíficas, chamem-se elas Thee Oh Sees ou King Gizzard and the Lizard Wizard – e, porque não, ainda Brian Jonestown Massacre? Com as suas aproximações ao mainstream (Tame Impala, anyone?). Com as suas muitas surpresas sazonais como os JC Flowers (Londres) e Quilt (Boston), psych-pop airosa que aqui vos deixo. Bendita barafunda.