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Dois meses depois, ainda estamos a falar de Bowie

Atuações especiais de homenagem em grandes cerimónias e concertos de tributo fazem do vulto que nos deixou em janeiro a figura mais presente da história musical de 2016 até ao momento

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Esta noite, apesar da agenda de prémios que habitualmente faz a notícia (e que acabou com Adele, sem surpresa, a colher louros de novo momento de triunfo), a cerimónia de entrega dos Brits Awards acabou dominada por uma homenagem que abria espaço à entrega do prestigiado Icon Award. A título póstumo, o prémio estava atribuído a David Bowie. Coube a Annie Lennox, uma das primeiras grandes estrelas pop britânicas a explorar heranças da ambiguidade de género que Bowie tão bem colocara em cena entre discos e atitudes nos anos 70, o papel de o apresentar. E fê-lo de modo sentido, falando num plural não majestático de um “nós” (porque o somos todos) a quem a notícia de 10 de janeiro ainda custa a processar, lembrando como nesse dia desapareceu uma figura maior da cultura britânica e, acima de tudo, um artista com marcas únicas de individualidade.

Cedeu então a palavra a Gary Oldman, amigo pessoal de Bowie, que recebeu o prémio em mãos em nome dele e da família e que, num prisma agora mais íntimo e pessoal, recordou como a música tinha sido para ele tanto uma arma contra a solidão como um poderoso meio de comunicação, explicando ainda como encarara a evolução da doença com serenidade.

Homenagem em três partes, terminou com os músicos da banda que acompanhara David Bowie na sua derradeira digressão, num medley por onde passaram elementos de canções como “Under Pressure”, “Fame”, “Let’s Dance” ou “Space Oddity”, a eles juntando-se Lorde para interpretar depois “Life on Mars”...

A presença de Bowie nos Brits não destoou assim do que tem sido uma incontornável abertura de espaços nas várias cerimónias do género que o ano tem vindo a assistir, desde o medley espalhafatoso com que Lady Gaga o evocou na noite dos Grammys à versão de “The Jean Genie” que Iggy Pop (velho amigo e colaborador) apresentou, acompanhado pela banda de Patti Smith, esta mesma semana no palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, em mais uma edição do anual Tibetan Freedom Concert.

Se a estas recentes atuações ao vivo juntarmos a quantidade de versões que têm surgido em pequenos tributos em disco ou concertos de artistas um todo por todo o lado, mede-se como ainda claramente dominada pela figura de Bowie a pulsação de um ano que não parece ter encontrado nenhum outro músico (vivo) que lhe pareça fazer sombra.

Há mais ideias a caminho. Há discos com gravações ao vivo nas quais Bowie foi colaborador. Dele, ao que se sabe, há planos que ele mesmo chegou a definir para futuras antologias. Mas nada deverá chegar aos escaparates antes de 2017.

A agenda Bowie de 2016 faz-se assim com a exposição “David Bowie Is” – que depois da Holanda estará no Japão e certamente conhecerá futuras paragens a anunciar – e com um programa de concertos de homenagem que não deixarão de surgir. Um dos mais falados está agendado para dia 31 de março no Carnegie Hall e junta já contribuições de Laurie Anderson, Pixies, Cat Power, Flaming Lips, Debbie Harry ou Michael Stipe. No dia seguinte, com um line-up ligeiramente diferente, haverá nova homenagem no Radio City Music Hall. Tony Visconti, colaborador de Bowie em diversos discos, entre os quais os seus dos últimos álbuns The Next Day (2013) e Blackstar (2016) será o diretor musical de ambas as noites.

E posto isto, ainda ouviremos falar de Bowie muitas vezes este ano.