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Quatro notas sobre António Zambujo e Miguel Araújo

Ainda não fui ver nenhum dos espetáculos da dupla António Zambujo e Miguel Araújo mas isso não me impede de dizer que estamos perante um fenómeno notável da música portuguesa. E há lições a retirar do bom sucesso destes dois

É óbvio que o tamanho aqui importa. Ou a quantidade. São 17 Coliseus, nove em Lisboa e oito no Porto, que chegam e sobram para bater qualquer recorde da música portuguesa estabelecido naquelas salas. Pelas minhas contas, serão mais de 35 mil os espectadores que poderão ouvir o reportório que António Zambujo e Miguel Araújo têm vindo a fazer desfilar – considero uma lotação média de 2100 lugares - e nunca se viu temporada assim. Nas últimas décadas, a única comparação que me parece justa é a dos GNR no Estádio de Alvalade, mas já lá vão quase 24 anos.

Eram outros tempos nos quais singrava a indústria do disco. Nos quais brilhava, eventualmente pela primeira vez, uma indústria do disco portuguesa que então se havia profissionalizado e começava a mostrar resultados. Hoje, o contexto é manifestamente diverso. A música só agora começa a emergir de uma crise que durou 15 anos e daí se retiram algumas notas:

1. Há espaço para novo talento na música portuguesa. Esta vitória de António Zambujo e Miguel Araújo prova que o reinado dos mesmos – isto é, Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, etc – já permite a intromissão de novos artistas. A capacidade de promover novo talento é um dos resultados do fim da crise na indústria da música. Antes, as editoras discográficas, descapitalizadas como estavam, eram incapazes de “breakar”, como se diz na gíria, novos artistas. Agora já acontece e não exatamente com a muleta do fado.

2. Ainda assim, os dois não são propriamente novatos. Não conto o tempo em que Zambujo participava nos musicais de Filipe La Féria, mas o seu primeiro disco data de 2002. E Araújo começou com o grupo Tsé Tsé no longínquo ano de 1996, quando estes editam um álbum pela BMG, sendo o primeiro registo dos Azeitonas de 2005, desta vez publicado por uma editora de Rui Veloso. Como sempre, como dantes, os artistas portugueses precisam de uma infinidade de tempo para que as suas canções se imponham junto do público. Lembram-se do fenómeno Resistência? E aqui continua a ser notória a incapacidade dos media e, sobretudo, das rádios para dar a conhecer música portuguesa.

3. Por isso, a maior novidade deste fenómeno é, nem mais nem menos, um novo conceito de autor que, em Portugal, incrivelmente só aparece já neste século. Foram décadas de apego à ideia do cantautor, de alguém que compõe e canta as suas próprias canções. Uma ideia que, provavelmente, se radicou nos tempos da canção de protesto e na crença do engajamento político da música. Quer António Zambujo quer Miguel Araújo pertencem a uma nova geração, de que ainda faz parte Pedro da Silva Martins dos Deolinda, capaz de oferecer as suas canções a outros cantores. São eles quem escreve muitas das canções de Ana Moura, Mariza e outros artistas que hoje são os mais populares em Portugal. Mais do que isso, desenvolveram um tal tráfego entre si e outros cantores que se estão a produzir resultados notáveis.

4. Esta capacidade de imaginar uma canção vivendo fora do perímetro do seu autor conduz a outro corolário. A capacidade de se apropriarem das canções dos outros. Nesta temporada que Zambujo e Araújo têm vindo a apresentar, pelo que vejo na imprensa, há temas recuperados do cancioneiro popular, dos clássicos do fado, dos Beatles, dos Queen, da música brasileira e, claro, de outros autores portugueses como João Gil ou Pedro da Silva Martins. A música portuguesa cresceu. E isso nota-se.

Agora só me resta ir ao Porto, para onde se deslocou esta série de espectáculos, poder assistir a isso mesmo.