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O mundo depois de Pablo nunca mais será o mesmo

Mais Kanye West esta semana: seis ideias, questões, dúvidas plantadas na cabeça de Rui Miguel Abreu por essa enorme semente chamada The Life Of Pablo

Ainda Kanye West. Imagino que após o anúncio recente da descoberta cósmica que provou a teoria da relatividade de Einstein a comunidade científica internacional tenha mergulhado num justificado estado de excitação: afinal de contas, vivem-se tempos históricos e a cada dia que passa novos detalhes surgem que erguem novos paradigmas ou derrubam velhos dogmas. The Life of Pablo de Kanye West é igual: buraco negro e bosão de Higgs e velocidade da luz, tudo junto, tudo espantosamente caótico e com a força para derrubar tudo o que até aqui se conhecia como certo.

1. A atenção conseguida por Kanye West é massiva, mas ele ainda não gastou um tostão em marketing. Mesmo a festa no Madison Square Garden terá tido a conta assumida pela Adidas, já que se tratava da apresentação da colecção Yeezy Season

3. Talvez como nenhum outro disco antes deste, The Life of Pablo confirma, finalmente, que as regras que eram tidas como certas no universo do marketing discográfico deixaram de fazer sentido no presente digital das redes sociais. É preciso reescrever o livro?

2. The Life of Pablo é um sucesso tremendo, empurrou, sozinho, o Tidal até ao topo das tabelas de downloads nas app stores, mas nem sequer está ainda à venda. Nesta nova era há, portanto, outras moedas - de notoriedade, de poder mediático - que não são imediatamente convertíveis em valores financeiros mas que ainda assim possuem um alcance tremendo.

3. Kanye West está prestes a ver o seu rosto estampado em incontáveis publicações internacionais e nem sequer estreou ainda um vídeo de apoio ao seu novo álbum. Até aqui era impensável conseguir este tipo de impacto sem a poderosa ferramenta vídeo a trabalhar para se alcançar este grau de impacto. Veja-se o exemplo de Drake e de "Hotline Bling". Um vídeo bastou...

4. O disco nem sequer está terminado. Semanas e semanas de rascunhos partilhados no Twitter e Instagram, temas que entraram e saíram do alinhamento, rimas gravadas em cima da hora antes da estreia no Tidal, álbum colocado à venda, retirado depois, com Kanye a garantir que nunca estará disponível no Spotify ou Apple Music... Como se de repente boa parte do planeta se quisesse mudar para uma casa que ainda nem está terminada. E algum dia estará? Como a Sagrada Família de Barcelona, parece que a obra interminável exerce um fascínio tão poderoso como outros projectos já concluídos. O processo de criação deixa de ser um meio e passa a ser ele mesmo um fim: PJ Harvey fez da gravação do seu último álbum uma performance artística num museu com uma janela aberta ao olhar de visitantes; Kanye escancarou tudo perante o mundo através das redes sociais...

5. O que é que isto significa em relação aos nossos hábitos de consumo de música? Quem vê filmes ou séries ou desporto em televisão já sabe que é necessário gerir vontades e fazer opções: o que subscrever? Netflix? Serviços de cabo com acesso a conteúdos exclusivos? Mas o que se exibe num canal não aparece no outro... O mesmo se começa agora a passar no universo da música: Taylor Swift não está no Spotify. Kanye West não está na Apple Music. Prince não está no YouTube. Dantes eram as editoras que usufruíam da criatividade de cada artista em regimes de exclusividade renováveis de tempos a tempos. E agora? Vamos começar a ter que olhar para os catálogos de cada serviço antes de assinarmos? Ou então assinamos todos?

6. Ao longo dos anos fomos aprendendo a ouvir discos como objectos acabados, herméticos, fechados a que, com o avançar dos tempos e apenas nalguns casos especiais, foram depois, através de edições comemorativas, acrescentadas outras peças: maquetes, versões alternativas de estúdio, etc. Mas essas revelações só aconteceram décadas após as edições que se afirmaram como definitivas. Veja-se o caso recente de The River de Bruce Springsteen ou dos álbuns clássicos dos Velvet Underground: décadas depois de terem sido originalmente lançados estes discos mereceram reedições antológicas, carregadas de extras que nos permitem entender um pouco melhor como se chegou ao objecto definitivo. Kanye West inverteu o processo e tem vindo a mostrar-nos os temas antes de estarem terminados.

Quando The Life of Pablo finalmente estiver concluído, já seremos íntimos dos seus erros, percalços, falsos arranques e tentativas falhadas.

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