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Mike Patton, o crooner que também sabe ser gremlin

O homem dos Faith no More brilha nos registos mais díspares e improváveis, meio caminho andado para lhe ter uma devoção duradoura

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Há poucos músicos de cujo aniversário me recorde sem recurso a lembrete, seja ele o Facebook ou uma lista de efemérides. Mike Patton, nascido na localidade californiana de Eureka (a sério) a 27 de janeiro de 1968, é uma dessas raridades. Por ser um artista que marcou a minha caminhada de amante de música, claro, mas também porque entrou nos meus ouvidos e na minha cabeça naquela idade em que sentimos obrigação de devorar toda a informação disponível sobre os nossos ídolos (e em que essa informação se fixa na nossa memória; hoje nem o meu telefone de casa sei de cor, na adolescência era capaz de debitar um sem número de factoides sem grande relevância, mas com impressionante rigor).

Como tantas vezes sucede, foi através de uma série de atalhos (hoje chamar-lhes-íamos hyperlinks) que cheguei ao Mike Patton e aos Faith no More, banda que, em finais dos anos 90, ainda liderava. Lembro-me de, no amarelo suplemento de artes do Diário de Notícias, o DN+, ler o Manel Cruz, dos meus então já adorados Ornatos Violeta, elogiar o álbum “maldito” dos norte-americanos – King For a Day, Fool For a Lifetime – e dessa leitura num banco de jardim em Belém até às primeiras filas dos concertos nos coliseus do Porto e Lisboa sinto ter-se passado um ápice. Má sorte que, duas semanas depois, a incipiente net de então me tenha trazido a triste notícia: Faith no More Are No More (ia jurar que esta manchete existiu mesmo), o que foi verdade até 2009, altura em que Patton, Billy Gould, Roddy Bottum, Mike “Puffy” Bordin e Jon Hudson regressaram aos palcos, para meu gáudio e excitada comparência nos concertos no Sudoeste (para o qual terão estado alguns dias a ensaiar no Barreiro…) e no Alive.

Depois desses espetáculos em 2009 e 2010, respetivamente, não sonhava pedir mais nada da pandilha de Angel Dust, mas em 2015 o impensável sucedeu: um disco novo dos Faith no More. E, o que é raríssimo neste tipo de regressos à criação, ao nível do seu melhor – basta ouvir “Separation Anxiety”, “Motherfucker” ou a grandiosa “Matador” para o sangue de qualquer fã voltar a ferver como nos bons velhos tempos.

Acarinho a presença dos Faith no More na minha coleção de discos por várias razões, das mais prosaicas (o valor da sua obra, tão eclética como sólida) às mais paralelas, digamos assim. Por destoarem da paisagem sonora geralmente pacata com que alimento os meus dias, por terem uma postura criativa tão independente como anárquica, e por terem oferecido o Mike Patton à minha caderneta de heróis. Depois dos Faith no More, continuei a acompanhar o seu multifacetado trabalho, cujo arranque datava já, de resto, dos anos anteriores ao seu ingresso naquela banda (tinha umas tenras primaveras quando se juntou aos comparsas de São Francisco, mas já antes criara os influentes Mr. Bungle).

Foi graças a Mike Patton que conheci os festivais de Paredes de Coura (numa noite histórica de agosto de 2000, precisamente com os autores de California) e de Vilar de Mouros (que visitou com os Fantômas no ano seguinte). Vi-o ainda com os Tomahawk no antigo Hard Club, em Gaia, com Rahzel (novamente) em Coura, e até cantando em italiano com os Mondo Cane no Sudoeste (e acompanhado por uma orquestra vestida com as “camisetas” da seleção canarinha, no Rock in Rio do Rio de Janeiro, sob uma forte chuvada tropical).

No passado dia 14, um grupo de fãs partilhou, no Facebook, a versão dos Faith no More para “This Guy’s in Love With You”, de Burt Bacharach. Incluída originalmente no DVD Who Cares a Lot?, que em 1999 encerrava a trajetória do grupo até ao primeiro adeus, a arrebatada canção evidencia de forma quase pornográfica as qualidades canoras do homem que em tempos testou a paciência de Axl Rose. Mas, se de Mike Patton se podem esperar as mais inacreditáveis – e canónicas – prestações vocais, os mais indigestos e agressivos registos de gremlin ou gato assanhado também nunca estão fora de questão (no mais recente Sol Invictus, é o que sucede, por exemplo, na enganadoramente tranquila “Rise of the Fall”). Por me ter ensinado a gostar de todos essas facetas e a esperar, literalmente, o inesperado, prometo continuar a lembrar-me do 27 de janeiro com assiduidade. E a aguardar para breve um reencontro com este verdadeiro animal de palco.