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O fado das superbandas

Quando os gigantes se juntam, a música acanha-se. Porque será?

Lembro-me sempre dos Traveling Wilburys e do que costuma dizer Jeff Lynne, dos Electric Light Orchestra, sobre a sua chegada à superbanda que integrou entre 1988 e 1990 e da qual não era, de todo, o elemento mais destacado. Uma noite, ele e George Harrison estavam em estúdio (Lynne foi produtor do ex-Beatle) e é Harrison quem sugere: “E se formássemos um grupo?”. Tomando o repto como brincadeira, Lynne riposta: “OK, mas quem é que deveríamos chamar?”. E o “dark horse” atira: “Bob Dylan”. Nesse preciso momento, um excitadíssimo Lynne soube que não poderia vacilar e perguntou ao parceiro se poderiam ter também Roy Orbison. Harrison, admirador da voz de “Oh, Pretty Woman”, anuiu. Como ambos gostavam de Tom Petty, Tom Petty foi também contactado. Ninguém demorou a dar o “sim” e assim nasceram os Traveling Wilburys, uma superbanda que não se deu mal, mas não chegou a entrar em digressão devido aos proverbiais afazeres das carreiras de cada um dos seus elementos. Entre um disco e outro, morreu Roy Orbison.

Hoje, as superbandas raramente duram dois álbuns. E na maior parte das vezes “morrem” pouco tempo depois do primeiro. Os “projetos” nascem, normalmente, envoltos em secretismo e são depois apresentados como se do mais natural casamento se tratasse. Não raras vezes, o trabalho conjunto é gravado em tempo relâmpago, nos intervalos das agendas dos seus intervenientes, há quase sempre alguém que se empenha mais do que os outros (e que não poucas vezes traz um produtor da sua confiança), o “produto final” é defendido como “orgânico” e “natural”, apesar de ter sido registado em 17 estúdios e passado pelo crivo de 4 ou 5 managers diferentes. Dois ou três meses (ou até antes) depois da edição, o eclipse: elemento 1 anuncia uma digressão a solo; elemento 2 lança um disco de surpresa; o 3 vem a público dizer que o álbum da superbanda poderia ter sido melhor se todos tivessem despendido mais tempo; o 4 – normalmente o de menor “perfil” – lamenta que o álbum não tenha tido a promoção devida da editora e afiança que o que queria mesmo era ir para a estrada defendê-lo.

Na maior parte das vezes, os discos das superbandas são puzzles onde é relativamente fácil identificar quem fez o quê e quem está a mais. São boas ideias insufladas pelas palmadinhas nas costas que vão mirrando longe de olhares imparciais. Por cada The Good The Bad & The Queen (Damon Albarn e membros dos Clash) ou Them Crooked Vultures (Dave Grohl, Josh Homme e John Paul Jones), artífices de objetos artisticamente relevantes, há uma dúzia de ovnis como os Superheavy (Quem? A banda que uniu Mick Jagger, Joss Stone, Damian Marley, Dave Stewart e A. R. Rahman em 2011) ou o álbum gravado a meias entre os Metallica e Lou Reed (prontamente devastado por fãs de Metallica e Lou Reed).

Em março mostra-se o resultado da parceria entre Iggy Pop e um combo formado por Josh Homme, Dean Fertita (ambos dos Queens of the Stone Age) e Matt Helders (baterista dos Arctic Monkeys). Inteligentemente, é assumido como um disco novo de Iggy Pop, apesar da estampa de superbanda que lhe está por trás. Se resultar, é a “volta de honra” merecida de Iggy Pop (assim o diz Josh Homme), veterano de glórias longínquas (no que à música gravada diz respeito, já que em palco continua “animalesco”), com uma ajudinha da “malta nova”; se falhar, é mais um disco de Iggy Pop e só Iggy Pop sairá maculado. Para já, as canções apresentadas são das melhores do disco: “Break Into Your Heart” e “Gardenia” (algo titubeante quando apresentada ao vivo na televisão). A possibilidade de catástrofe está, portanto, posta de parte.