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Os Grammys e o twitter de Kanye West

A contracultura está de volta

A cerimónia dos Grammys vai começar daí a duas horas e Kanye West, que acabou de publicar um álbum novo na plataforma de streaming Tidal, está imparável no Twitter. Os críticos não poupam esforços para louvar “The Life of Pablo”. Mas Kanye não tem propriamente a mesma perspetiva: “Para a Pitchfork, Rolling Stone, New York Times e todas as outras publicações brancas. Por favor, não comentem mais a música negra”.

Parece um conflito inconsequente de alguém que aparentemente não sabe como se comportar nas redes sociais? É pouco provável. Duas horas depois, Taylor Swift abria a cerimónia de entrega dos Grammys. À menina que veio da country music foi concedida a honra de dar o tiro de partida dos Óscares da música. A Academia dos Grammys tem cerca de 13 mil votantes e só por duas vezes o hip-hop dos afro-americanos conquistou o prémio mais cobiçado de Melhor Álbum do Ano. A gala terminou mais de três horas depois da atuação da senhorita Swift. Foi ela quem conquistou o prémio que todos desejavam.

Não vale a pena fazer as contas ao número de gramofones que Kendrick Lamar, o principal rival de Swift, levou para casa (foram cinco) e quantos foram arrebanhados por ela (foram três). Mas eram esses dois quem disputava a primazia e quem representava, muito claramente, um campo e o outro.

No princípio da cerimónia, o senhor Lamar ainda alimentava um sonho. Quando recebeu o prémio para Melhor Álbum Rap, ainda podia cumprir a promessa de levar para casa todos os troféus para que fora nomeado (eram onze). E gritou, a terminar o ritual dos agradecimentos: “isto é pelo hip-hop”. Incendiou o Staples Center quando, já na qualidade de artista convidado para atuar, foi responsável pela mais relevante prestação da noite. A atuação terminou com um cenário apocalíptico: um mapa de África e a palavra Compton, a cidade a sul de Los Angeles conhecida pela violência dos seus gangs ou por ter sido o berço dos Niggers With Attitude.

Voltemos a Kanye West. Quando foi tornada pública a primeira fornada de canções de “The Life of Pablo”, o mundo indignou-se com a letra de uma canção em que o marido de Kim Kardashian dizia que ainda havia de ter sexo com a senhorita Taylor Swift. E que ela não era famosa senão às suas custas. A resposta surgiu no final da gala dos Grammys. Este prémio deve-se “às mulheres e a tudo o que conseguiram conquistar até agora”, proclamou Taylor Swift após receber o gramofone devido ao Melhor Álbum do Ano. Dias antes havia chamado “misógino” a Kanye West.

Podemos ver nas cerimónias de entregas de prémios da indústria da música, e também nas do cinema, a eterna luta entre bons e maus, talentosos e medíocres ou mesmo brancos e pretos. Mas neste Ano da Graça de 2016 pode estar a escapar-nos o confronto entre o politicamente correto e o politicamente muito incorreto.

De volta à timeline do Twitter de Kanye West: “Eu não tenho que ser cool... Eu sou um artista. A definição de arte - ou, pelo menos, a minha definição de arte - é ser capaz de ver a verdade e expressá-la”.

Na idade das redes sociais, da caça aos likes, das comparações entre os números de seguidores, na atenção dada às partilhas e retweets ou da conquista de audiências em TV, nunca dois mundos colidiram tão abertamente. E ao contrário do que se possa pensar, não é o mundo dos brancos e dos pretos que aqui está em causa.

É muito simplesmente a capacidade de cada artista poder, para o bem e para o mal, afirmar a sua arte. A criação de uma identidade é, em grande parte dos casos, o cerne da questão artística. E a afirmação dessa identidade implica tanto uma comunidade de apoiantes quanto uma de maldizentes. Ou haters, para falar a língua das redes sociais.

Por estes dias, ficou claro quem está interessado e quem não está interessado nisso, nessa coisa da arte.