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Quanto mais negra a amora...

...mais doce o sumo, diz o ditado, mas a América tem tido alguma dificuldade em engolir o que artistas como Beyoncé ou Kendrick Lamar têm feito nos últimos tempos, aproveitando a visibilidade conseguida com as suas carreiras artísticas

Ontem mesmo, Kendrick Lamar, que arrecadou 5 galardões na última cerimónia dos Grammys, embora tenha falhado em todas as nomeações mais “pop”, assinou uma incendiária performance no Staples Center carregada com uma óbvia mensagem política. Há pouco mais de uma semana, Beyoncé também usou o seu estatuto de realeza pop para transformar a sua passagem pelo intervalo do Super Bowl num momento de entrega de uma poderosa mensagem à América. Tanto Bey quanto K.Dot são duas importantes vozes da comunidade negra do país de Obama, dois modelos escrutinados em todos os seus gestos e por isso mesmo o que fazem em palco – ou em estúdio – tem um considerável eco na América e, naturalmente, no mundo.

Em comum, as performances de Beyoncé e Kendrick tiveram o facto de saberem aproveitar momentos de particular visibilidade para veicularem mensagens de vincada negritude à América. A cantora misturou Michael Jackson e os Panteras Negras, evocou o “x” de Malcolm X e ofereceu ao mundo um hino que é antes de mais nada, como Killer Mike, dos Run The Jewels, de forma muito lúcida explicou no programa Real Time de Bill Maher, uma mensagem de “empowerment” para dentro da própria comunidade negra americana: “white people, it’s not always about you”, explicou, ironicamente, Killer Mike, em reacção aos ataques de que Bey foi alvo nos media por parte da direita conservadora branca. Não que a esquerda negra a tenha poupado igualmente. A cantora é acusada de se apropriar de símbolos da negritude revolucionária para vender uma marca no mercado corporativo – ela mesma.

O caso de K.Dot é diferente: “Alright”, um dos temas premiados e interpretados na cerimónia de ontem dos Grammys, foi eleito como hino do movimento #BlackLivesMatter e tornou-se um símbolo do combate ao flagelo da violência policial dirigida a jovens negros, acontecimentos que têm estado na ordem do dia e que relembram que a América, como de resto a maior parte do planeta, tem ainda pela frente uma longa caminhada em direcção à paz e à igualdade. Tanto Beyoncé, no vídeo de “Formation”, como Kendrick, no de “Alright”, usam o carro de polícia como um poderoso ícone de uma opressão que é real e causa vítimas igualmente reais. Ambos os artistas falam por isso de uma realidade que os marca, que lhes toca, que conhecem em primeira mão.

O que é espantoso é que nem Beyoncé nem Kendrick tenham temido sacrificar alguma aceitação por parte da América branca para intervirem num momento que é decisivo na história da América, quando candidatos à presidência como Donald Trump ameaçam fazer desmoronar tanto do que, ainda assim, se conquistou nas últimas décadas. Nos anos 60, a Motown conquistou espaço nos tops e nos subúrbios suavizando a negritude das suas principais estrelas – vestidos de noite para Diana Ross, fatos de corte elegante para Stevie Wonder e Marvin Gaye – e deixando que apenas inocentes canções de amor se soltassem das suas gargantas. No arranque dos anos 70, no entanto, a história não podia ser contornada e até a máquina comercial da Motown teve que ceder espaço para que os seus principais símbolos se pudessem sintonizar com o Movimento dos Direitos Civis. E Marvin largou o fato, deixou crescer o afro e perguntou “what’s going on?”.

A história repete-se agora: Beyoncé tem um longo percurso pop, mas tem igualmente um sentido de responsabilidade, não nega as suas “narinas Jackson Five” e celebra o facto de ser negra na América de Obama. E Kendrick parece dizer aos seus pares que não esquece de onde vem e termina a sua brilhante performance nos Grammys em frente a um mapa de África com a palavra “Compton” em cima. A isto chama-se responsabilidade, maturidade e seriedade artística. Estas estrelas sabem que podem ser alavancas de mudança. E não temem usar o poder com que foram investidos. É assim que o mundo avança.