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Quando Alex Turner veste fato

O homem dos Arctic Monkeys consegue brilhar tão intensamente na “casa-mãe” como no projeto paralelo, que em abril regressa com o segundo disco

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Maio de 2006. Enviada ao Paradise Garage, uma bela sala de rock junto ao Tejo, para ver os então novatos Arctic Monkeys, não fazia ideia da comoção que me aguardava. Conhecia o disco de estreia da rapaziada de Sheffield, sabia do impacto que tivera em Inglaterra, tinha noção de que eram uma banda estimada pela miudagem (termo objetivo com que já então designava, sem qualquer intenção pejorativa, a massa humana bem mais jovem do que eu que enchia a sala de Alcântara). Quando, no turbilhão da primeira canção (que o setlist fm diz ter sido “I Bet You Look Good on the Dancefloor”, mas quem quer que tenha anotado o alinhamento parece ter sucumbido ao fim de quatro temas), dei por mim sem qualquer pé no chão, arrastada pela multidão em efervescência total, percebi duas coisas: a primeira era que convinha abandonar as primeiras filas e retirar-me para um local mais consentâneo com a minha fraca resistência física. A segunda mantém-se até hoje: tínhamos banda.

Ter-me-ia bastado escutar com menos desconfiança Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not para reconhecer esta mesma evidência. Lançado quando Alex Turner e companhia se aproximavam das 20 primaveras, o álbum de estreia dos britânicos continua a ser um portento de força e jeito, aliando todas as virtudes dos primeiros discos, abençoadas ingenuidade e abnegação à cabeça, com um talento já bem palpável para a escrita de canções. Foi paulatinamente, contudo, que os Arctic Monkeys me foram conquistando: em 2007 vi-os de cima – num camarote do Coliseu de Lisboa – arrasar com a plateia da sala nobre da capital, repetindo o efeito de areias movediças conseguido no Paradise Garage, ampliado em conformidade com a popularidade que, ao segundo álbum, já tinham atingido. Favourite Worst Nightmare, lançado naquele ano, era outro bom disco, casa de favoritos dos fãs como “Fluorescent Adolescent” ou “Brianstorm”, mas confesso que só de 2008 em diante os meus ouvidos se renderam sem reservas à família Arctic Monkeys. E logo graças a um “caso extraconjugal” do seu cabecilha, Alex Turner.

Com o amigo Miles Kane, então membro dos discretos The Rascals, Turner urdiu em The Age of the Understatement, primeiro disco do seu projeto paralelo, The Last Shadow Puppets, uma teia de elegância vitaminada que até hoje me parece notável. Inspirados pelo drama das bandas sonoras de James Bond ou Ennio Morricone, Turner – à época com tenros 22 anos – e Kane vestiram os fatos da comunhão e dispararam, logo à primeira tentativa, clássicos instantâneos como “Standing Next To Me” ou “My Mistakes Were Made For You”. Com arranjos de luxo, mas conservando a pulsão rock, os Last Shadow Puppets fizeram-me olhar com outros olhos para os Arctic Monkeys, que desde então têm cimentado o seu estatuto de grande banda britânica da sua geração.

Oito anos depois dessa bela surpresa, quando poucos já acreditariam que Turner & Kane voltassem a abrir atividade, chega Everything You’ve Come To Expect. O segundo disco dos Last Shadow Puppets sai em abril e, tendo já avistado as suas 11 sedutoras canções, posso garantir que vem aí outro álbum para viciar ouvidos de veludo. Mesmo que, desta vez e nas fotos de promoção, Alex tenha trocado o fato de fino corte por um fato de treino azul-bebé, a elegância continua a morar, e a apaixonar, por aqui.