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Adivinhem quem voltou

E se a sua banda falecida, perdão, preferida decidir regressar? Calma, o Walking Dead só recomeça na segunda

James Murphy ouviu das boas. Passaram apenas seis anos do fim anunciado com pompa dos LCD Soundsystem (um “funeral” em modo casamento cigano) e fã que é fã não se conforma com este regresso precoce dos “mortos” digno de um filme de George A. Romero. Porque fez o luto, porque teve de se conformar, porque gastou uma pipa de massa para se despedir. Porque o cânone pop/rock nos habituou a que depois de uma cisão se siga um período de nojo (também denominado “carreira a solo”) que será, boa parte das vezes, tão irrelevante que, por si só, autoriza o comeback. Mas fã que é fã também exultou com o regresso de uma banda querida que, desde sempre, se confundiu com o seu mentor (por que raio James Murphy haverá de dar outro nome à sua pandilha?). E que agora vai a correr comprar o bilhete para a primeira fila ou o passe para o festival que não anunciou, por enquanto, outro nome.

A verdade é que não há um “fã que é fã”. Há vários – não estou a dizer novidades. E perante uma reunião de gigantes de outrora ou de mui estimados motivos de culto de tempos idos, a resposta do lado de cá não é homogénea. Por cada “vendidos!” (não é descabido; as reuniões trazem carcanhol no bico e a música é vista como uma bandeira pretensamente pura que se vê conspurcada) haverá um eterno adolescente sedento de matar saudades com uma banda da sua vida e, sobretudo, consigo mesmo. Não há uma posição mais válida do que outra, mas a regra do “prognósticos só no fim” também aqui se aplica, se quisermos ver a coisa com o coração à distância. Balanços instantâneos (e subjetivos) de casos notáveis: Ornatos Violeta – vitória esmagadora; Blur – tem dias; Stone Roses – vade retro. E quando forem os Smiths é provável que tenhamos de ir a segunda volta.

Nos últimos dias, anunciaram-se pelo menos duas reuniões de nomes de respeito. Uma delas não será surpreendente, dado que já é a segunda. Os Guided By Voices, eminência indie americana do imparável Robert Pollard (o homem que já lançou mais álbuns do que as vezes que Morrissey teve sexo), retomam atividade porque, aparentemente, o bem nutrido circuito festivaleiro assim o reclama. Como o fazem em paralelo com o anúncio de mais álbuns (só na segunda vida, entre 2012 e 2014, foram seis), as hostes estão apaziguadas: há cred para desbaratar por mais um par de anos. Com as devidas - e são tantas - distâncias, os Guns N' Roses terão tarefa de convencimento um pouco mais árdua.

A segunda é mais surpreendente porque, reconhecemos, não é todos os dias que nos lembramos que os anos 90 americanos nos ofereceram Star, um belíssimo álbum de rock (sem mais carimbos) que repousa airosamente em qualquer prateleira. Falamos de Belly, a banda de Tanya Donnelly. Um projeto paralelo de alguém que integrou Throwing Muses (com a meia-irmã, Kristin Hersh; também reunidos no século XXI), que fez parte de Breeders (proveitosa aventura lateral de Kim Deal, então dos Pixies; igualmente recuperados para a vida esta década, uns e outros) e que logrou fazer o seu melhor disco em 1993, num período fervilhante para a “alternative nation” americana (um certo Kurt Cobain haveria de pôr fim à festa um ano depois). Inativos desde 1996, após um segundo álbum menos relevante (King, apesar de tudo recipiente do êxito “Super Connected”), Star é um disco que alterna o lado arisco do turbilhão rock do início da década com a candura de uma certa herança 4AD dos anos 80. É um álbum em que o rock de guitarras sai muito bem servido em “Angel”, mas que também faz ondular cabeças em “Feed the Tree” ou “Slow Dog”, e nos embala em “White Belly”.

Será, por toda esta aura de pureza, um regresso mais bem-vindo do que outros? Isso depende, claro, de quem se predispõe a voltar, mas sobretudo de nós.