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Os músicos não gostam de Donald Trump?

Ao receber o “não” de Adele, Steven Tyler e R.E.M. quanto ao uso de canções suas em comícios, Trump segue uma tradição de casos com músicos que tem caracterizado as campanhas de outros candidatos à presidência dos EUA. Sobretudo republicanos. Afinal tem aí algo em comum com muitos deles...

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há algumas semanas, num rally (podemos chamar-lhe comício?) da candidatura de Donald Trump em Lexington, na Carolina do Sul, a chegada ao palco do candidato que tem dado valentes dores de cabeça ao establishment republicano no processo de escolha de quem será o candidato do partido às presidenciais de novembro não se fez em silêncio. Não só havia os aplausos dos que apoiam a sua candidatura, mas também de música. E pelos altifalantes saíam os sons de “Rolling in the Deep”, uma das canções de 21, o segundo álbum de Adele. Pelos vistos Donald Trump gosta da canção. E provavelmente da cantora, já que por vezes “Skyfall” integra a playlist usada antes dos comícios começarem. Os seus apoiantes também. Mas quando Adele soube do uso da sua música pela candidatura de Trump, certamente na sequência de um tweet lançado por um jornalista da BBC que seguia o acontecimento e notou a presença da canção, fez soar não a voz que canta, mas a que manda fazer silêncio. De resto, não só proibiu Trump como qualquer outra candidatura de usar as suas canções.

Este foi o terceiro puxão de orelhas que chega de músicos à candidatura de Trump que, como tantas outras no presente, faz destes eventos com plateia (e câmaras de TV) verdadeiros espetáculos onde a palavra é quem mais ordena mas nos quais a banda sonora não é descuidada.

Antes de Adele já Steven Tyler, dos Aerosmith tinha dado um igual não à mesma candidatura depois da canção “Dream On” ter conhecido utilização em eventos públicos. Ao estilo da Trump, a resposta não deixou de sublinhar que, graças à exposição que a canção ali tivera, aquela utilização que desagradara ao músico tinha feito mais pela sua promoção na última década que qualquer outra ação. Mas a verdade é que a deixou de usar.

E como não há duas sem três, também os R.E.M. fizeram já igual pedido para que a sua canção “It’s the End of The World As We Know It” deixasse de ser utilizada em iguais circunstâncias.

Apesar da notoriedade dos nomes que disseram “não” a Trump, o milionário que esta semana arrebatou a vitória nas primárias republicanas no estado de New Hampshire (mas que em sondagens estaduais ali perde tanto para Hillary Clinton como para Bernie Sanders numa hipotética simulação local do voto em novembro), não é o primeiro a enervar artistas pouco inclinados a dar música a políticos com os quais não se identificam.

Marco Rubio, outros dos que concorrem à nomeação republicana, recebeu um “não” da dupla electrónica Axwell and Ingrosso por usar o seu tema “Something New”. E em eleições anteriores podemos recordar como Mitt Romney teve problemas com as utilizações de canções como “Eye of the Tiger” dos Survivor ou “Wavin’ Flag” de K’naan, John McCain levou Jackson Browne a levantar-se contra o uso de “Running on Empty”, Michele Bachman não encantou Tom Petty (o mesmo que tinha entrado em choque com George W. Bush pelo tema “I Won’t Back Down”) por escolher “American Girl” para sua canção em campanha. Se quisermos ir mais atrás no tempo podemos recordar como Bruce Springsteen explicou a Ronald Reagan que não tinha compreendido bem o seu “Born in the USA” depois do presidente que então se recandidatava ter referido o músico como alguém com mensagens de esperança... Mas será que, de facto, muitos destes políticos escutaram as canções e sabem quem as criou ou limitaram-se a dar o sim ao consultor que as escolheu?

São de facto muitas as colisões entre músicos e candidatos. Sobretudo candidatos republicanos. Mas houve já casos com democratas. Em 2008, por exemplo, o candidato Barack Obama recebeu um pedido de Sam Moore para que deixasse de usar “Hold On, I’m Coming” nos seus comícios. Apesar de apoiar oficialmente o candidato, deixou claro que esse era um entendimento seu com o boletim de voto e não com as suas canções. E Obama deixou de a usar.