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A política de Beyoncé

Os comentários sobre a sua atuação na Super Bowl são divergentes. Só há uma certeza: a cadeia de restaurantes Red Lobster subiu a faturação 30%

Ainda a propósito da atuação de Beyoncé no intervalo da Super Bowl, todos os comentários foram permitidos. Esse mesmo e o seu inverso também.

Vale a pena fazer uma pequena resenha. Lê-se nos títulos: Beyoncé roubou o número aos Coldplay; Beyoncé fez regressar o Black Lives Matter à agenda; Beyoncé está contra a polícia ou Beyoncé está acima de qualquer crítica.

A narrativa política é muito próxima do público norte-americano - ainda mais do que a própria Super Bowl - mas não deixa de ser das mais importantes. Facto: Beyoncé homenageou Michael Jackson ao utilizar um uniforme semelhante ao do autor de "Bad" também numa destas finais do futebol americano. Um ponto a favor.

Facto: Beyoncé trajou as bailarinas que a acompanhavam com os uniformes das Black Panthers, renovando os protestos sobre a atuação da polícia relativamente aos negros, impedindo que o tema escape à agenda mediática. Dois pontos a favor, ainda que esse seja o posicionamento de uma artista sendo ela completamente livre para tal.

Facto: Beyoncé não está acima de qualquer crítica. Ainda que esse seja o ambiente que se vive na idade das redes sociais, Beyoncé não tem que encenar a sua participação na Super Bowl de maneira a obter o maior número de likes ou, se quisermos, a maior audiência possível em TV. Ela pode dizer o que quiser. E assim sendo, pode ser criticada (ou não) por tê-lo dito.

Facto: os Coldplay foram humilhados. Como são todos os artistas britânicos que, algo inocentemente, procuram romper um mercado estrangeiro forte e, portanto, fechado. A notícia, logo no dia seguinte, de que Beyoncé havia recusado uma colaboração com a banda de Chris Martin só serviu para acentuar o enxovalho provocado durante o intervalo do jogo. Um artista britânico, mesmo que incensado pelo seu público nacional e pela comunicação social do seu país, não sabe com que linhas se deve coser nos Estados Unidos da América. É assim desde os Beatles.

Moral da história: a grande batalha esquecida desta Super Bowl não foram os Direitos do Homem ou o Estado do Racismo nos EUA. A guerra que aqui ficou ganha foi a do nacionalismo e os seus efeitos colaterais servem para, mais uma vez, evitar a entrada de estrangeiros no mercado norte-americano.

A outra guerra era puramente económica: a cadeia de peixe e mariscos Red Lobster viu as suas receitas aumentarem em mais de 30% depois de mencionada na nova canção que Beyoncé apresentou na Super Bowl. Qual é a política dela?