Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Opinião

J Dilla: o espírito que não morre

Em vésperas de se cumprir uma década sobre o desaparecimento de um dos mais importantes produtores de hip hop de sempre, aqui fica um convite especial

James Dewitt Yancey. O mundo conhece-o como J Dilla ou Jay Dee. Teria completado 42 anos no passado domingo. Passam amanhã 10 anos sobre o seu desaparecimento. Juntamente com o falecimento de Adam Yauch, a morte de J Dilla foi a que provavelmente maior impacto registou naquele pedaço do meu coração que vive mais sintonizado com o ruído que nasceu no Bronx e se espalhou como um manto por todo o planeta. E se hoje o hip hop é, de facto, uma língua franca, global, democrática e progressista, muito deve a homens como Yauch e Dilla. E falo do hip hop como expressão musical, como cultura, não necessariamente como força de mercado.

Dilla nasceu em Detroit, cidade desprovida de quase tudo, vazia de fábricas, que começa a ser tomada pela natureza, como alguns documentários mostram (recomendo sobretudo Requiem for Detroit? do mesmo Julien Temple que filmou David Bowie em Absolute Beginners), como se só o tempo pudesse corrigir os erros dos homens. Com a sua MPC, aliou-se primeiro a gente como D’Angelo, Q-Tip e Questlove dos Roots e desatou a fazer batidas para todos os MCs que procurassem um som diferente. Trabalhou com o grande Common, inspirou Kanye West, fez um grande disco com Madlib – o projecto Jaylib – e morreu, vítima de complicações relacionadas com o lupus, numa cama de hospital onde passou os últimos dias a produzir sons novos, sabendo que o futuro era realmente onde a sua música pertencia.

E, na última década, o mundo não tem parado de o celebrar. A razão para tudo isto, no entanto, é terrivelmente simples: a música de J Dilla era visionária, intensa e profundamente original. Usando as mesmas ferramentas do hip hop que veio antes de si – o gira-discos como interface para a memória, o sampler como alavanca de transformação –, Dilla ergueu micro-sinfonias de balanço, ignorando a quantização das máquinas e assumindo o erro, o soluço, a fuga à norma como marca da sua identidade. Dilla possuía igualmente um ouvido de ouro: na forma como equalizava as baterias identifica-se a mesma atenção ao detalhe que levava os grandes mestres pintores a misturarem os seus próprios pigmentos de forma a obterem tonalidades únicas. A identidade não está apenas nas formas, no ritmo das pinceladas, na composição cromática, está na própria luz que emana de cada tom, de cada mini-explosão de cor. É igual na música: fala-se do tom de Miles, do sopro de Coltrane, e os especialistas sabem reconhecer essas marcas de forma instantânea, precisamente porque mais ninguém soprava assim. O mesmo acontece com uma tarola de Dilla, como antes dele de DJ Premier: são tons especiais numa paleta singular que ninguém soube ou ousou repetir.

Dilla construiu portanto o seu próprio tempo e a sua própria luz. Ou seja, Dilla ergueu um mundo novo. E na década desde que desapareceu, sobre essa dimensão paralela, uma nova forma de estar na música ergueu-se: se Kendrick Lamar abraça o jazz daquela maneira, se Rick Rubin chama a si a nova electrónica de Flying Lotus, se Kanye West regressa a Madlib, tudo isso pode ser lido como o universo a reencontrar-se com J Dilla. Com aquele balanço particular, com aquele tempo e com aquela luz que de tão intensa se recusa a deixar o seu brilho esmorecer.

Amanhã, o mundo assinala 10 anos sem J Dilla. E na quinta-feira, o Musicbox, em Lisboa, celebra-lhe o espírito num evento de entrada livre onde se vai servir um Donut muito especial. Estão todos convidados...