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2016: Ano forte para a música portuguesa?

Quantidade e variedade de edições não faltam, e ainda só vamos em fevereiro. Esta semana, colocamos a lupa num dos lançamentos nacionais da temporada

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Ainda o ano vai no adro e já parece ser possível afirmar que 2016 vai trazer uma colheita de boa qualidade no que à música portuguesa diz respeito.

Com discos acabados de lançar ou prontinhos a sair do forno, vários "novos pesos pesados" se perfilam: apesar da sua relativa juventude, PAUS e Linda Martini, Orelha Negra e Deolinda conquistaram já um lugar cativo na música que se faz por cá, mercê da regularidade de edições, devoção de fãs que os seguem e identidade própria.

Até ao final da primavera que já espreita, todos lançarão discos novos, o que me fez pensar naquilo que, em entrevista à BLITZ de fevereiro, ainda nas bancas, Márcia defendeu. Comentando o programa No Ar, uma produção da Antena 3 sobre músicos portugueses, com transmissão também na RTP2, frisou não só a qualidade do que se vai criando em Portugal como a personalidade de boa parte dos projetos. "Não estamos a copiar o que se faz lá fora", repetiu, alertando para a necessidade de se falar no momento presente.

A uma escala menor, no que toca ao público mas não ao talento, 2016 também promete pôr na mesa o melhor serviço de mesa. Slow, o terceiro álbum de Minta, uma das "encarnações" de Francisca Cortesão, chega a 26 de fevereiro para mostrar por que razão a cantora e compositora nascida no Porto é uma das melhores tratadoras de palavras e melodias do retângulo, ao passo A Rose Is a Rose Is a Rose, o novo de Old Jerusalem, com edição prevista para 11 de março, já é o disco que, a par do surpreendente regresso dos Underworld, mais tenho escutado neste começo de ano.

Lembro-me da chegada de April, o primeiro álbum de Francisco "Old J" Silva, com a nitidez das memórias que importam. Trabalhava, numa outra redação, no turno das sete da manhã, e esperava o autocarro antes de o sol nascer na companhia daquele disco, rodando pacientemente no meu discman. Desde então, o portuense, que não faz da música o seu ganha-pão, tem engrossado o caldo das suas canções, construindo uma obra discreta mediaticamente mas de grande lastro lírico, e não só.

A assiduidade incerta das suas edições (até 2011 tivemos um álbum a cada dois anos, mas A Rose is a Rose is a Rose é o primeiro desde então) torna cada regresso motivo de celebração e e a oferenda de 2016 é-o a vários níveis: no princípio e no fim de tudo estão as canções, belíssimos monumentos de força e fragilidade, melodias sorridentes e acabamentos de luxo, elevando Old Jerusalem de discípulo apaixonado de Will Oldham e Bill Callahan a autor de valor e brilho muito próprios.

13 anos volvidos sobre April, e mercê da data no calendário em que a A Rose Is a Rose Is a Rose, tal como aquela debute (de janeiro de 2003), aterrou na minha secretária, Old Jerusalem continua a saber-me ao estrear de um ano novo, ao abrir de um livro, ao inaugurar de um caderno ou, como diria uma boa amiga, ao primeiro gole de Coca-Cola. Que 2016 conserve essa frescura.