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O meu primeiro festival dava um filme indiano

Cerca de uma vintena de anos depois dos primeiros festivais da era moderna em Portugal, é possível manter a inocência e a excitação perante mais um aglomerado de bandas a tocar para mais um aglomerado de pessoas? Claro que sim

O meu primeiro festival foi o Sudoeste 1997, o primeiro de todos e um dos pioneiros dos grandes festivais da era moderna em Portugal (acontece um ano depois da terceira edição de Vilar de Mouros). Eu tinha 20 anos, vivia num quarto alugado em Lisboa (nada garbosos aposentos da casa de uma septuagenária minhota desbragada), tinha comprado um rádio/leitor de CD e cassetes há muito pouco tempo e não tinha sobrado um tusto para o bilhete do festival. O meu primeiro festival consistiu, portanto, em ouvir os concertos de Blur e Suede na rádio – e que bem que soube, mas que mal que me caiu apanhar com o entusiasmo dos amigos que lá estiveram. Ainda assim, mais empolgante do que ter trocado David Bowie junto ao Tejo por um velório, um ano antes.

No ano seguinte tinha a coisa planeada: Sudoeste não, que diz que é só pó, mas ao Imperial ao Vivo, na mui nobre e Invicta, iam os Pulp e o Nick Cave (e um Moby antes da fama e os sempre fiáveis James). Mas que belíssima ideia, não estivesse eu a trabalhar num part-time das 18 às 22 sem possibilidade de trocar folgas. O meu primeiro festival foi outra vez passado num quarto com papel de parede piroso, agarrado à telefonia. E a ouvir, nos dias seguintes, os comentários esfuziantes de quem viu Jarvis Cocker fazer o seu “moonwalking” muito próprio no campo de treinos do Estádio das Antas (!).

Em 1999 a minha vida deu uma bela volta e no final da primavera soube que iria estagiar para um jornal de música e cultura jovem (adivinhem qual!). Esfreguei as mãos de contente: aproximava-se o verão. Quem melhor do que um estagiário esfomeado para andar a calcorrear a Herdade da Casa Branca, apanhar chuva em Paredes de Coura ou pisar bosta de vaca em Vilar de Mouros? Se vos disser o dia em que entrei pela primeira vez pela porta da redação do então jornal BLITZ, em Cabo Ruivo (Lisboa), perceberão a razão de novo falhanço: 20 de setembro de 1999. A indecisão quanto ao início do estágio durou umas valentes semanas, os festivais entretanto já eram e olá Outono, aqui estou eu para ficar.

Chega o ano 2000, este que vos escreve já caminha para os 23 anos e festivais que são festivais a sério nem vê-los. Neste ano – passada a neurose do bug – nada poderia, porém, falhar. O estágio transformou-se em colaboração permanente, há mais festivais do que jornalistas, é desta que me apanham nem que seja no festival da morcela de arroz (que não existe mas deveria existir). Quando chegou a altura da divisão festivaleira, percebi de imediato que deveria ter reservado “bilhete” com antecedência: os festivais eram fruto apetecido e na hora H já toda a gente na redação tinha urinado no seu cantinho. Como era preciso alguém para labutar sobre outras – mais cinzentas – ocorrências, fiquei em terra. E perdi, pelos vistos, o mais louco festival que aconteceu por estas bandas.

2001. Virgem de festivais de verão há quase 24 anos. Esta situação não pode continuar. Maio não deveria ter chegado a meio e o espanhol festival de Benicàssim (FIB) já vai com um cartaz tremendo. Clinic, Manic Street Preachers, Divine Comedy, Avalanches (nota mental: voltar a ouvir Since I Left You asap), Flaming Lips, Belle & Sebastian (oh, Belle & Sebastian!), Goldfrapp, Ladytron, Mercury Rev, Mogwai, Big Star (!), PJ Harvey, Pulp e mais uns quantos. Tinha duas opções: ou sucumbir a um enfarte do miocárdio ou convencer a direção do jornal a deixar-me “testemunhar um festival a sério, o modelo a partir do qual se erguerão todos os festivais portugueses a partir de agora”. Os argumentos não terão sido muito diferentes e o então diretor, Rui Monteiro, não demorou – para minha surpresa – a dizer que sim. 2001 ia ser o melhor ano de sempre. Que digo eu? 2001 já estava a ser o melhor ano de sempre. Aliás, eu já duvidava que o impacto que me viria a causar o meu primeiro festival – e logo aquele! – fosse maior do que aquilo que, até ao dia D, eu já sentia: uma enorme euforia.

Cheguei ao aeroporto de Valência na manhã de 3 de agosto de 2001 com um bloco de notas, uma caneta, duas mudas de roupa, um voucher para o hotel e os contactos da equipa de comunicação do FIB. Já não sei como me pus em Benicàssim, que ainda ficava a 90 quilómetros do avião da Portugália, mas seguro é que, quando pousei a mochila na cama de casal do quarto do hotel Orange, perto da praia, sabia que só um tsunami poderia hipotecar a consumação do meu primeiro festival. Com um ligeiro amargo de boca: logo à partida, é sabido que já estava a “falhar”; cama, mesa e roupa lavada são luxos que só o extenuante ofício do escriba musical em ambiente festivaleiro pode justificar (a experiência de campismo só a teria, um ano depois e sem compromisso laboral, no Sudoeste). Mas o cartaz – que cartaz! – era do outro mundo. Flaming Lips? Mágicos, como o Sudoeste daquele ano pôde testemunhar (o último álbum ainda era o tremendo The Soft Bulletin). Goldfrapp? Hipnotizantes (e na altura não tinham mais do que Felt Mountain). Mercury Rev? Emocionantes (com Deserter’s Songs ainda tão fresco no coração). Belle & Sebastian, banda da minha vida, a epifania absoluta numa tenda lotada (o concerto foi transmitido em direto no palco principal, tal era a afluência), Isobel Campbell ainda no plantel e com um vestido que tinha o Bob Dylan estampado, mãos gigantes de cartão (cortesia de um patrocinador) nas mãos de toda a gente para abanar o calor, uma cãibra no meu braço direito tal era o pouco espaço disponível entre festivaleiros.

No último dia do festival, a atravessar o viaduto que ligava o seu recinto à zona mais urbanizada de Benicàssim, admito que deixei cair uma lágrima ao som do “espetáculo de luz e som” dos Orbital. O meu primeiro festival já tinha acabado e a partir daí seria sempre a descer – pensava eu. Não foi assim. À chegada a Lisboa, pensando “compensar-me” pela benesse concedida, o diretor mandou-me para Carviçais para a cobertura do emérito Carviçais Rock, bem perto de Torre de Moncorvo, Trás-Os-Montes. Não fui, naturalmente, de avião (entre comboios, almoço no Porto, e um autocarro da empresa Santos que parou em metade do Minho e Alto Douro, devem ter sido umas 9 horas até lá chegar), mas levei o mesmo bloco de notas, a caneta e novas mudas de roupa. Havia uma pequena mostra de gastronomia, cinema ao ar livre, três computadores com linha RDIS (para divulgar a internet), tocaram os Gift, os Napalm Death, os Cousteau, os Wraygunn e mais uns quantos, estava um calor impossível de dia e fresquinho à noite. As pessoas da terra não pagavam. A cerveja creio que não custava mais do que 100 escudos. Foi o meu segundo festival e o contraste não poderia ser maior. A emoção, contudo, pinto-a com as mesmas cores. Por estes dias, o meu centésimo (exagero) festival será o primeiro para muita gente. Aproveitai, vilanagem!