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Tricky (na foto) é um dos poucos artistas internacionais com concertos confirmados em sala, este ano.

Estarão os concertos de artistas internacionais em sala em vias de extinção?

Há este ano um contraste abissal entre aquele que parece ser o mais cativante programa de festivais de sempre em Portugal e o quase silêncio para já votado às salas mais clássicas de concertos

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

A lista de nomes parece de facto imbatível e não sei se alguma vez tivemos entre nós, num mesmo ano, tantos e tão cativantes nomes. De PJ Harvey aos Arcade Fire, de Bruce Springsteen aos The National, de Brian Wilson aos Animal Collective, dos Radiohead aos LCD Soundsystem, de Tame Impala aos Pixies, de Robert Plant aos Hollywood Vampires, dos Air aos Chemical Brothers, de Courtney Barnett a Kendrick Lamar, dos Destroyer a Beach House... É preciso continuar?... Todos eles passam por cá este ano. E todos eles em palcos de festivais.

Nada contra os festivais (que isso fique desde já bem claro). E que bom foi vermos até a forma como o NOS Alive foi recentemente distinguido entre a oferta que transcende as nossas fronteiras... Mas depois dos festivais, o que fica?

Há os “muito grandes” que nos visitam em salas “muito grandes” ou espaços “muito grandes”... Seu Jorge, Muse, Florence & The Machine, Adele, AC/DC, Scorpions, Iron Maiden, The Cure, Justin Bieber ... E quando depois chegamos às salas mais “clássicas” de concertos o que vemos é um panorama que, felizmente sem falta de boa representação nacional, parece de dieta quando chega a hora de apresentar quem, vindo de fora, anda pelas estradas em digressão.

Estará o panorama de concertos em sala para artistas estrangeiros em vias de extinção entre nós?

Há datas com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tricky, Ludovico Einaudi nos Coliseus. E pouco mais, sendo de assinalar que nas salas pequenas a coisa está de boa saúde e recomenda-se (em sons, ideias e presenças). Mas onde andam os concertos em sala? Onde estão as digressões que correm pelos palcos da velha Europa?

É de facto bom ter tanta gente e tão boa nos festivais portugueses. É bom poder usar o que de economicamente compensador propõe a quem a eles vai aquele bilhete que com menos dá mais... Mas que fique também clara uma realidade: tirando os grandes cabeças de cartaz que podem exigir o tempo que bem entendem para a sua atuação, respeitando assim os alinhamentos que são norma habitual em tour, a esmagadora maioria dos concertos são ali inevitavelmente mais curtos e por vezes mais cheios dos temas para plateias não especialistas do que aqueles que os mesmos artistas apresentam quando chegam a uma sala, para apresentar a quem ali foi para os ver em específico um “set” mais completo, mais longo, eventualmente mais cheio de peças inesperadas, diferentes ou mesmo únicas. Isto sem falar quão mais vibrante, porque concentrada, é uma sala cheia de admiradores de um artista só do que o ambiente (sempre festivo é certo, mas de gostos naturalmente mais fraccionados) de uma plateia de festival.

Regresso à casa partida. Nada contra os festivais. E são, pelos vistos, brilhantes e cativantes os cartazes que nos oferecem este ano. Mas que o tom gourmet com que se anuncia o menu desses dias festivaleiros não nos custe o silêncio às salas de concerto. Apenas porque há outras maneiras de ouvir música que convém não silenciar.