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“Não escrevas no Twitter, deixa-me imaginar-te”

Ainda há espaço para fantasiarmos com a música e os músicos na era das redes sociais?

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No final do ano passado entrevistei metade da alma dos australianos Go Betweens, Robert Forster. Meio da manhã em Lisboa, final da tarde em Brisbane, cidade onde o cantor e compositor que em 2015 regressou com o álbum Songs To Play continua a viver, e a conversa fluiu, gostosa, entre o “milagre” que foi conhecer Grant McLennan na altura em que, ambos adolescentes, começavam a escrever canções, e um certo concerto no Porto, em 1988, onde a banda se viu obrigada a, por doença súbita do baterista, mudar todo o alinhamento e dar um espetáculo irrepetível, que ainda hoje habita a memória de Mr. Forster.

Com tão laborioso artesão da palavra do outro lado da linha, contudo, a entrevista acabou por seguir um rumo muito ligado às letras das canções. Com toda a generosidade do mundo, explicou-nos o nosso interlocutor – que, além de músico, é crítico de rock e escritor – que “Songwriters on the Run” foi inspirado por uma manchete que leu na Alemanha, sobre dois criminosos foragidos, ou que, mais do que inusitado momento de egocentrismo, um título como “Love Myself (And I Always Have)” versa sobre a inesperada dificuldade que muitas vezes sentimos em olhar-nos ao espelho e sorrir.

O mais saboroso pedaço de conversa surgiu, contudo, logo nos primeiros minutos, a propósito da canção “Let Me Imagine You”. É nesta bela peça de pop luminosa que Robert Forster faz um curioso apelo: “please don’t twitter, let me imagine you”. Perguntei-lhe se acreditava que o tempo que passamos online está a aniquilar-nos a imaginação, e cavalheirescamente o australiano explicou que esta é uma canção “sobre tentar encontrar espaço para pensar e sonhar”. Como quando ouvíamos rádio e imaginávamos a cara dos locutores? “Exatamente!”, exclamou. “Essa capacidade é espetacular, porque tens de desenhar algo a partir de um som, usando uma parte do cérebro ligada à criatividade, que nem sempre é muito usada porque, no mundo em que vivemos, recebemos tanta informação, tanto ruído visual, que já não precisamos de pensar, sonhar ou imaginar tanto”.

Lembro-me amiúde desta troca de impressões ao fazer scroll down no Instagram. Tempos houve em que Ryan Adams, um dos meus cantores e compositores prediletos, era uma figura nebulosa cujas canções escutava com fervor nos programas de Miguel Quintão, na extinta Rádio Voxx, mas de quem sabia apenas ter tido existência turbulenta à frente dos Whiskeytown, a banda que liderou antes de se lançar a solo com aquele que será um dos discos da minha vida: Heartbreaker, de 2000. À época, não tinha computador em casa e a internet era um luxo controlado pelas contínuas da faculdade, tiranas portadoras da chave da “sala dos computadores”. O Ryan Adams era um mistério que eu tentava completar com as letras e as capas dos seus discos e estava tudo bem.

16 anos depois, o Ryan Adams é alguém que um amigo me recomendou que seguisse no Instagram, rede social que uso para partilhar fotos de cães, gatos e florzinhas e acompanhar duas mãos cheias de amigos. Não me arrependi de acrescentar ao meu feed o homem que no ano passado regravou um álbum da Taylor Swift; ao contrário do que acontece com muitos artistas, eis uma conta que só pode ser gerida pelo próprio (a anarquia e falta de autocensura assim o denunciam). Só ontem, por exemplo, fiquei a saber que o pai do músico se sagrou campeão de pinball (pinball, essa “invenção cultural americana” que Ryan Adams considera ser estar ao nível “do jazz, dos blues, do baseball e do rock and roll”), que na gaveta de meias lá de casa reside agora um par de soquetes dos Slayer (produto oficial, garante este fã da banda de Reign in Blood) ou que, do outro lado do mundo, aquele que ainda é um dos meus cantautores favoritos também comeu salmão fumado este fim de semana.

Se é estranho encontrar estas atualizações, de alguém que se admira e com quem nunca se chegou à fala, junto das fotos dos passeios ou dos filhos de amigos da “vida real”? Sem dúvida. Mas, no caso muito particular de Ryan Adams, não há rede social capaz de extinguir o fascínio que começa logo pelo seu nome de utilizador: não há vez que olhe para MISTERRYANADAMS e, em vez de ler Mister Ryan Adams, não leia antes Mistery Ryan Adams. Parece que, apesar da evidente overdose de net e redes sociais, a minha imaginação ainda respira.

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