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A canção ainda é uma arma de protesto

Um dos primeiros grandes discos de 2016 é um álbum que traça uma crítica contundente à América do presente e à sua relação com os outros povos

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Dos hinos de Bob Dylan ou John Lennon nos anos 60 a peças não menos contundentes como o foram “Killing in The Name” dos Rage Against The Machine, que surge na sequência dos motins em Los Angeles no início dos anos 90, “Born Free” de M.I.A., sobre discriminação e genocídio, ou “Standing in The Way of Control” dos Gossip, lançada numa etapa em que se lutava pela igualdade no acesso ao casamento nos EUA, a ideia de usar a música como voz de protesto não deixou nunca de habitar entre a linha da frente da relação dos músicos com o mundo ao seu redor ou de nós, que os ouvimos, com as suas canções. Nem é preciso ir até tão longe para o sentirmos. E entre nós, com vincada tradição de formas de veicular a crítica e o protesto sob o regime anterior em vozes como as de José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Adriano Correira de Oliveira, Luís Cília e outros mais que criavam canções no Portugal de 60 e 70, o hino em que se transformou “Parva Que Sou” dos Deolinda é sinal de como a anestesia que parece ter dominado parte significativa da vasta frente de criação da música popular atual pensada para grandes audiências não adormeceu tudo e todos. Há vozes atentas. E quem as queira escutar.

Tudo isto para colocar no mapa dos discos que vale a pena escutarmos em 2016 um álbum que teria mais argumentos para passar longe das nossas atenções do que para cair no colo dos focos do mediatismo. Chamam-se Shearwater, chegam do Texas (um dos bastiões conservadores dos Estados Unidos, sistematicamente votando nos candidatos republicanos quando chega o dia da eleição) e fazem do seu novo álbum um dos mais poderosos manifestos de crítica sobre a América dos nossos dias que temos escutado na forma de música nos últimos tempos.

O grupo tem uma história relativamente discreta, tendo na verdade nascido de uma ideia dos músicos de outra banda – os Okkervil River – em criar um espaço alternativo para as canções mais tranquilas ou “diferentes” que gostariam de compor e não cabiam no quadro do campo estético e temático da banda principal. Com o tempo os Shearwater foram ganhando personalidade e identidade e, no dia em que um dos desses dois músicos – Jonathan Meibug – optou por deixar a banda “principal” para se concentrar nesta aventura paralela, as canções tomaram outro fôlego e seguiram em frente. Ainda calmas, muitas vezes com temáticas marinhas por perto, como podemos recordar no belíssimo e plácido álbum Rook, de 2008.

Depois de uma pausa de três anos, necessária para pensar para onde partir depois de desbravados esses caminhos iniciais, os Shearwater mostram no novo Jet Plane and Oxbow não apenas uma abordagem sonora diferente (influenciada por memórias de inícios dos anos 80, passando por David Byrne, Brian Eno e os Talk Talk) como libertam a alma e confessam todo um conjunto de opiniões contundentes e profundamente críticas sobre o país em que vivem e a relação dos americanos com o mundo ao seu redor.

Não foram os dois mandatos de Obama nem o idealismo sonhador pregado por Bernie Sanders, que começa a beliscar com mais veemência o que outrora parecia uma caminhada segura e solitária de Hillary Clinton rumo à nomeação democrata, que apagaram as vozes críticas de comportamentos que ainda não conheceram a “mudança” em tempos cantada em comícios. De resto, a forma como os Sheawater usam a canção de protesto neste álbum não se foca na geometria da separação de ideias entre os dois grandes partidos. Mas ao chegar num ano em que se anuncia uma eleição que lança alertas em todos os sentidos pela forma como abre caminhos a figuras e discursos mais extremados, ao criticar a maneira de ser de um povo o disco pode ser, mais do que um catalisador para o debate partidário, um ponto de partida para uma reflexão (também crítica) sobre o que é a América do nosso tempo. E sendo esta a maior democracia e primeira potência mundial, esse debate é coisa que inevitavelmente acaba a ressoar entre nós.