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Festivais: da megalomania ao pobre mas honrado

Os festivais portugueses são dos melhores, e mais baratos, da Europa

Anda por aí uma inquietação sobre os festivais portugueses: que perderam a identidade, que já têm nomes a mais, que são filhos bastardos das marcas, que são em número excessivo ou que dantes é que era bom.

Ora, vale a pena olhar para as coisas com um mínimo de objetividade e começar por aceitar o óbvio. Não é uma questão de gosto, é aliás muito facilmente demonstrável: os festivais que acontecem em Portugal têm dos melhores cartazes de toda a Europa e o preço das entradas é indiscutivelmente dos mais baratos. Mas há quem acha isso uma chatice.

Quando digo que têm alguns dos melhores cartazes da Europa estou a basear-me no que tem sucedido nos últimos anos e também nos nomes que foram anunciados para a próxima estação. E quando afirmo que os cartazes são fortes estou a recorrer a uma medida muito clara: o cachet dos artistas e a sua capacidade para atrair público.

Olho para o NOS Alive e, dentro do género em que esse festival se afirmou, não vejo nenhum outro com um conjunto de artistas e bandas tão fortes. Não me refiro às bandas que são coqueluche na imprensa britânica. Para este propósito lembrei-me apenas de Radiohead, Arcade Fire, Pixies, Chemical Brothers e Robert Plant.

Da mesma maneira sei que o Rock in Rio, que este ano está muito atrasado no anúncio dos nomes, é indisputavelmente o habitat natural dos artistas que fazem parte da Lista A. Nenhum outro festival paga cachets tão elevados, frequentemente acima do milhão de dólares. Poucos festivais conseguem ter no seu historial Rolling Stones, Bruce Springsteen, Metallica, Maroon 5, Miley Cyrus, Stevie Wonder, Elton John ou Justin Timberlake.

Esta coincidência - cartazes fortes e bilhetes baratos - só é possível porque em Portugal as marcas apoiam consideravelmente os festivais, subsidiando o preço das entradas e permitindo contratações generosas. Mostrem-me um festival europeu que tenha nomes tão fortes (cachet mais capacidade para atrair público) e bilhetes tão baratos e eu provarei que a dívida pública portuguesa será toda paga no próximo ano.

Depois, há aquela mania das grandezas, de nos compararmos com o incomparável. Ou de fugir à discussão relevando o nosso gosto pessoal. A tentação de cotejar os festivais portugueses com os de mercados muito mais desenvolvidos sem nunca tentar perceber a nossa escala. E no fim, claro, há aquela tendência de passar do 80 para o 8. De passar da megalomania para o salazarento "pobre mas honrado". Para o "dantes é que era bom", senão mesmo para o xenófobo "isto agora está cheio de estrangeiros".

Não precisamos da imprensa estrangeira, grande parte dela comprada, para nos dizer que os festivais em Portugal são indiscutivelmente dos melhores da Europa: a crua realidade dos últimos anos assim tem demonstrado. São números objetivos, a que facilmente se acrescenta a capacidade de atrair turistas. Porque será?

Posto isto, um dia será necessário cuidar da sua rentabilidade. Nem tudo o que luz é ouro. Mas essa é outra conversa.