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Kanye West vai editar o melhor álbum de sempre...

... pelo menos foi o que prometeu, através do Twitter. O engraçado é que a promessa até poderá ter algum fundamento.

Kanye West, de novo. Perdoarão os leitores, mas é difícil fugir de uma figura que se apresenta como maior do que a vida, que usa a música para mandar recados a grandes corporações, que ameaça meter-se na corrida para a Casa Branca, que canoniza filhos que ainda nem nasceram e que faz de cada nova sexta-feira uma sexta-feira senão santa, pelo menos abençoada. Ainda que algumas dessas sextas possam na verdade só chegar às segundas ou terças. Mas afinal de contas, as GOOD Fridays, como o Natal, são quando o homem quiser...

Ora bem, Kanye usou o Twitter para divulgar o suposto alinhamento de Swish, disco que está programado para chegar em cima do décimo aniversário do desaparecimento de J Dilla, que se assinala no próximo dia 10 de fevereiro, facto que não pode ser coincidência, certamente. Mas ao que tudo indica, Kanye continua de volta do disco, já que, ainda na mesma rede social, foi agora divulgada uma foto que aponta para o facto de Yeezy estar em estúdio a trabalhar com o seu conterrâneo Chance The Rapper numa faixa para a série GOOD Friday. “Real Friends” e “No More Parties in LA”, tema com Kendrick Lamar sobre beat de Madlib, foram ambas divulgadas como parte da série das sextas-feiras abençoadas e têm lugar no alinhamento divulgado para Swish. Será que o tema com Chance the Rapper, que no ano passado surfou com distinção o cartaz do festival de verão da Ericeira, pode seguir o mesmo caminho?

Seja como for, mais do que a revelação do suposto alinhamento do aguardadíssimo novo álbum de Kanye (que, conhecendo a peça, poderá muito bem sofrer alterações até ao derradeiro momento), o que realmente gerou burburinho foi a legenda criada para a foto em causa: “So happy to be finished with the best album of all time”. Além de reparos à sua caligrafia, houve igualmente quem apontasse o foco para o ego do homem que já mudou o rumo (Late Registration) da música (808s and Heartbreak) um par de vezes (Yeezus). Goste-se ou não, é inegável a influência de um artista como Kanye, bem patente em obras tão diversas como a de Kendrick Lamar, Drake, The Weeknd ou em praticamente toda a nação indie, que se estende dos Tame Impala a quem quer que seja que possa ser o sabor desta semana. Kanye é gigante, não teme quebrar regras (lembram-se da capa de Yeezus?) e, sobretudo, não teme expôr o ego, como aquela legenda bem indica.

Na verdade, o primeiro impulso de qualquer artista que se atreva a colocar um novo disco na rua, sobretudo qualquer artista que tenha consciência do rico legado da história da pop, tem que ser muito semelhante ao que anima aquela frase de Kanye: ou se acredita que se está a lançar o melhor disco de sempre ou mais vale estar quietinho. Não é nisso que Kanye é diferente. Kanye diverge por não temer expressar esse sentimento. Mas, ao contrário de 99 por cento dos artistas que se movem no imenso oceano da pop, Kanye tem uma obra que sustenta essas declarações. É um rapper de excepção, um produtor iluminado, um criativo singular. Mas é, acima de tudo isso, um artista moderno ímpar, que entende as novas dinâmicas da realidade pop, as novas formas de comunicar, as novas ferramentas de expressão criativa.

Kanye já criou muita descendência, mas a sua influência ainda está longe de se ter desvanecido e a prole pode muito bem aumentar. E essa é uma medida só ao alcance dos muito grandes, dos enormes. O génio da obra também está na sua capacidade de mudar o mundo. E entre os Beatles, os Velvet Underground, os Sex Pistols, Prince ou Michael Jackson, o mundo foi acusando os abalos, de diferentes magnitudes, é certo, mas transformou-se sempre a seguir. Quer-me parecer que nada vai ficar igual depois de Swish. Como diz a canção, “I’m a believer”. E por isso mesmo tudo fica mais fácil...