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A arte de perder eleitores

Qualquer artista já se viu confrontado com a “desistência” de alguns fãs. Mas o fenómeno não é necessariamente negativo, como provam os casos bem distintos de Tindersticks ou António Zambujo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Lançados no espaço de apenas quatro anos, entre 1993 e 1997, os três primeiros álbuns dos Tindersticks gozam de uma mística que, como é frequente no caso de discos e grupos carismáticos, ultrapassa a própria banda. No final do ano passado, ainda Bowie era vivo, falei com Stuart Staples, em Lisboa, sobre esses tempos em que tudo era novo: gravar os primeiros álbuns, descobrir o mundo, vir a Lisboa pela primeira vez. Fleumático mas assertivo, o homem forte dos Tindersticks reconheceu que demoraria alguns anos a constatar o óbvio: essa época de descoberta, transbordando novidade e frescura, não volta mais. E a única forma que a banda inglesa, hoje operando a partir de França, teve de continuar o seu caminho foi mudando de rota. Não radicalmente, mas de forma suficientemente palpável para que, em 1999, Simple Pleasure fosse recebido com estranheza. Os Tindersticks sempre haviam sido amantes de soul e, ao abrirem as janelas de um quarto em tempos claustrofóbico, com canções sensuais como “Can We Start Again?”, escandalizaram os fãs que os consideravam porta-estandartes de um movimento urbano-depressivo, estanques na música e na vida.

“E nós éramos urbano-depressivos, mas mesmo assim ouvíamos reggae!”, exclamou, entre risos, Stuart Staples numa entrevista que poderá ler na próxima edição da BLITZ, nas bancas na próxima sexta-feira, dia 29. O cantor, compositor e pai de cinco filhos lembra que, na década de 90, havia fãs que repreendiam a banda de Nottingham por passar reggae antes dos concertos. “Nesse tempo, havia uma visão musical meio negra, na qual nós encaixávamos. E eu nunca me senti muito confortável com essa escuridão”, confessa. “Por isso, fazer um disco soul que confundisse as pessoas foi ótimo”, considera. Apesar de terem perdido muitos fãs?, perguntei. A resposta pode surpreender alguns: precisamente por causa disso. “Ao fazermos um quarto álbum tão diferente dos primeiros três, perdemos muitas pessoas, o que me deixou muito satisfeito”, admite, apresentando essa liberdade como primeiro passo para, entre 2011 e o momento presente, terem criado os belíssimos The Somehting Rain e The Waiting Room.

Poucas semanas depois, encontrei a dupla do momento, António Zambujo e Miguel Araújo, preparando os seus 17 (!) concertos de coliseu, com que marcarão a atualidade musical em fevereiro e março. Sobre a popularidade cavalgante de uma proposta musical tão singela (duas vozes e duas guitarras serão o cerne do espetáculo), os músicos divagaram sobre a impressão que o público poderá ter sobre as suas pessoas. E, sempre no registo descontraído que o caracteriza, António Zambujo lembrou que já foi renegado por várias fações: primeiro, a do fado, meio onde começou por singrar (“Esses mataram-me, crucificaram-me”). Mais recentemente, “uma malta mais alternativa, que gostava e deixou de gostar”, contou, sugerindo que, quanto maior é a notoriedade de certo artista, menos provável é “essa grupeta indie” emprestar-lhe apoio e carinho. “Mas não é grave”, salientou sempre, esboço de sorriso omnipresente no canto da boca.

E tem toda a razão: tal como os Tindersticks abraçaram a soul e o jazz para hoje fazerem discos de múltiplas camadas e interpretações, livres de rótulos e âncoras estilísticas, António Zambujo partiu do fado para uma diáspora lusófona cujas fronteiras estão cada vez mais esbatidas. Depois dos coliseus, volta para o Brasil, a que praticamente já chama casa, para concluir as gravações de um disco de versões de Chico Buarque, com participação do próprio. Em ressaca de noite eleitoral, parece-me uma oportunidade tão boa como outra qualquer para lembrar que nem todas as derrotas são o que parecem – e algumas podem revelar-se mesmo, a breve prazo, saborosas vitórias.