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Já podem parar de morrer, OK?

Alguém ponha travão à razia de janeiro, que assim não se consegue viver

Esta não é a primeira prosa sobre a mortandade de janeiro. Não a julguem menos sentida por isso. Despedimo-nos de 2015 incrédulos pela morte de Lemmy Kilmister, paradigma da durabilidade do lifestyle rock and roll, longe de imaginar que o novo ano começaria de forma tão negra. Ainda antes do primeiro dia de 2016 foi-se Natalie Cole (mas a notícia chegou depois do réveillon) – já antes tinha ido John Bradbury, baterista dos Specials.

A lista adensa-se (por ordem cronológica e remetendo-nos à música e derivados): Paul Bley (pianista jazz), Robert Stigwood (manager dos Bee Gees), Pierre Boulez (compositor revolucionário), Otis Clay (cantor soul), David Bowie (caramba, David Bowie), Giorgio Gomelsky (o primeiro manager dos Rolling Stones), Glenn Frey (guitarrista dos Eagles), Dale Griffin (baterista dos Mott The Hoople)…

Rui Reininho, em conversa que terá eco na próxima BLITZ, desabafou: “Eu já não via morrer tanta gente à minha volta desde o tempo em que as drogas estavam na moda”. E eu lembrei-me de uma bela canção de um esquecido Badly Drawn Boy (um inglês de gorro que chegou a fazer uns discos bem catitas no início da década passada) que se chamava “You Were Right”. “I remember doing nothing on the night Sinatra died / And the night Jeff Buckley died / And the night Kurt Cobain died / And the night John Lennon died / I remember I stayed up to watch the news with everyone / And that was a lot of nights / And that was a lot of lives / Who lost the tickets to what they need”.

Não me recordo de Lennon morrer – tinha apenas três anos –, mas como Damon Gough – o rapaz que canta – sei bem onde estava quando Jeff Buckley ou Kurt Cobain (e Freddie Mercury) passaram para o outro lado. E também eu fiquei, primeiro catatónico, a ver as notícias como toda a gente e, depois resignado, a pensar nas mais infalíveis frases feitas, em busca de consolação.

Entretanto, somewhere in Connecticut, Keith Richards apaga mais alguns contactos do telemóvel. Que chatice esta coisa de ser imortal.