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A música tem mais encanto na hora da despedida?

O álbum de despedida de David Bowie é número um pelo mundo fora. E discos antigos seus regressam agora aos “tops”. Repete-se um cenário de sede de compra na hora do adeus. Mas com Bowie é, mesmo assim, um pouco diferente de outros casos recentes

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Há algo em comum a quase todas as tabelas de vendas de discos nos grandes mercados mundiais da música gravada. O número um cabe a Blackstar, de David Bowie. Foram mais de 20 os países aqueles em que o álbum foi o mais vendido da semana, entre eles Portugal, Alemanha. Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Finândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Japão, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Polónia, Reino Unido, Suécia, Suíça e Estados Unidos, neste último representando este o primeiro disco da extensa obra do músico a atingir aquela posição. O disco, lançado a 8 de janeiro, dia do 69º aniversário do músico e pouco antes da sua morte (a 10 de janeiro), atingiu o número um na loja iTunes em 69 países.

Houve territórios nos quais outros discos seus surgiram entre os mais vendidos esta semana. Só no Reino Unido foram 19 os álbuns seus a figurar no top dos cem mais vendidos, com a antologia Nothing Has Changed, de 2014, a chegar ao número 5, havendo outras mais três compilações e até mesmo a caixa Five Years (com 12 discos, lançada em 2015, a surgir no número 97). Na lista surgiam ainda os álbuns de estúdio Hunky Dory (14º lugar), The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (17º), Aladdin Sane (23º), The Next Day (25ª), Low (31º), Diamond Dogs (37º), Let’s Dance (42º), Heroes (45º), Station to Station (55º), Young Americans (60º), Scary Monsters (61º), The Man Who Sold The World (89º) e Space Oddity (95º). Da colheita dos anos 70 ficaram de fora apenas os álbuns Pin Ups (um disco de versões editado em 1973) e Lodger (o último da chamada etapa berlinense, lançado em 1979)... Já a tabela de singles inglesa incluía 13 temas de Bowie, o mais elevado na classificação sendo "Heroes" (de 1977). "Lazarus" e "Blackstar", do novo álbum, surgiam respetivamente nos números 45 e 61.

Mais intensa talvez do que com outras mortes de músicos, a despedida de David Bowie lembrou uma vez mais como a vontade de escutar alguém por vezes ganha fulgor para lá de intenso na hora do adeus. Como por vezes se diz, e convenhamos que com um certo humor negro (que às vezes não tem graça nenhuma), a morte é como uma das melhores jogadas de carreira para um músico... Porque invariavelmente o cenário se repete...

Foi assimcom Lou Reed, que só depois de morto viu o seu mais que clássico “Perfect Day” a figurar na lista dos singles mais vendidos no Reino Unido. No adeus de Whiney Houston, os seus êxitos maiores, “I Will Always Love You” e “I Wanna Dance With Somebody”, voltaram à lista dos mais vendidos nos EUA, subindo respetivamente aos números 3 e 25. E Michael Jackson, que nos seus últimos anos de vida era figura com valores de vendas bem aquém do que outrora conhecera, viu um surto de interesse ser lançado sobre si mal se soube que não estava já entre nós, tendo depois já conhecido até lançamentos póstumos de inéditos, pela frente estando agora, para breve, uma reedição do álbum de 1979 Off The Wall.

Tal como Lou Reed, embora com uma história mais recheada de êxitos, David Bowie era um daqueles músicos cujas obras – pelo menos as que fazem o cânone central da sua discografia de estúdio – estão permanentemente em catálogo, as vendas na verdade nunca deixando de acontecer. Contudo, e apesar de ter conhecido um primeiro êxito ao cabo de cinco anos de discos (em 1969, com o single “Space Oddity”) e de na verdade só se ter transformado numa estrela de dimensão pop maior quando vestiu a pele de Ziggy Stardust em 1972, e de ter somado alguns números um com Aladdin Sane (1973) ou Diamond Dogs (1974) como só em 1983 a sua música atingiu uma dimensão mainstream global, sendo esse o seu primeiro disco a receber múltiplas platinas. O brilho nesse patamar de idolatria popular planetária foi de pouca dura no departamento das vendas, repetindo-as as platinas apenas com Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987)... Todos o conheciam. Muitos lhe compraram os discos. Mas na verdade, desde finais dos anos 80, mesmo com pontuais momentos de boas vendas em 1993 (com Black Tie White Noise) e 2013 (no regresso após dez anos de silêncio com The Next Day), nunca mais David Bowie foi um campeão de vendas.

A forma como a sua música chegou a tanta gente, por saber comunicar com o que de diferente há em cada um de nós, foi assim bem mais longe do que o volume de vendas de discos ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira. O que está a acontecer neste momento não é mais senão uma manifestação de quem o admira, levando a música de Bowie a muitas casas onde, mesmo até já bem conhecidos, os discos estavam talvez ainda em falta.