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Não nos esqueçamos que há um grande álbum de David Bowie para ouvir

Blackstar será inevitavelmente visto como o canto do cisne do génio, mas merece ter vida própria: é um disco tremendo, dos melhores que Bowie nos deu

Não, também não acredito na ressurreição (até porque o quarto dia de Lázaro já passou) – quem aprecia a arbitrariedade do mundo laico não pode pedir milagres. E talvez seja um pouco por isso que, mal as notícias da morte de David Bowie me deixaram de soar exageradas (quem não desejou que fosse um engano?), não fui a correr ouvir de novo o Hunky Dory. Não fui à santidade, fui direto a Blackstar.

Cada um faz o seu luto como quer – e ninguém tem mesmo nada com isso –, e é tão compreensível que a um fã de Bowie faça sentido ouvir de novo o “Let’s Dance” ou que a outro lhe apeteça empinar a banda-sonora de “Buddha of Suburbia” (já que haja quem vá chorar ao colo de “Never Let Me Down” me parece difícil, mas à chacun son goût). Não falarei por mais ninguém nem quero defender a minha reação como mais “verdadeira”.

Consigo explicar a coisa assim: na primeira semana do novo ano ouvi Blackstar perto de uma vintena de vezes, preparando um texto avantajado para o Culturas da revista E, do Expresso. Dir-me-ão que fui vencido pela repetição e que, se ouvido com tamanha insistência, mesmo o álbum mais sofrível acaba por se acomodar no ouvido. Falo por mim, novamente: nenhum álbum mau merece ser ouvido vinte vezes. A cada audição de Blackstar, mesmo as mais desatentas, mesmo aquelas que se sobrepunham à feitura de uma notícia de última hora ou ao escrutínio do feed do Facebook, várias camadas eram acrescentadas a um imaginário que, logo à partida, me pareceu irresistível.

Blackstar é Bowie negro, é Bowie no fio da navalha, mas também é Bowie com os dois olhos a brilhar. É uma descida às profundezas, à carne que apodrece, mas também uma travessia do sonho. Ouça-se o trecho do tema-título entre os 4 minutos e meio e os 7 e qualquer coisa: isto não é Scott Walker a acordar os defuntos bicentenários em Tilt, isto é um homem que não se esqueceu de quem já foi, da sua luz, e que ainda quer piscar-nos o olho. E o andamento de “Tis a Pity She Was a Whore” não é propriamente de marcha fúnebre…

Parece certo que os sinais da despedida estarão espalhados por aquele que Bowie sabia que poderia tornar-se o seu último opus (mesmo que, já bem perto do fim, tenha ainda tentado continuar a fazer música, diz-nos Tony Visconti), mas uma boa maneira de fazermos justiça ao génio (não tenhamos medo da palavra) e até de nos conformarmos com o inevitável (Bowie não voltará) será encarar Blackstar como um álbum como os outros – este, em particular, incrivelmente bom. E acreditar – lá se vai a laicidade – que o homem ainda vai sacar outro assim.