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Bowie, o prestidigitador

O desaparecimento de Bowie assinala também a chegada de uma nova era na pop

A reação foi unânime, intensa e global: o mundo – pelo menos aquele que se mede pelo feed no meu mural de Facebook – acordou esta segunda-feira com a triste e inesperada notícia do desaparecimento de David Bowie, um mero par de dias após a edição do triunfal Blackstar. E nestas últimas 48 horas tanto se disse e escreveu sobre esse facto que quase nem vale a pena voltar ao assunto. Mas a verdade é que não há, para já pelo menos, como escapar-lhe. E portanto cá estou de novo, a contemplar o génio de David Bowie e a perguntar-me de onde vem, afinal de contas, todo este inesgotável fascínio?

Ontem, depois de uma conversa com a minha filha, que tem 20 anos e é igualmente apaixonada por Bowie (paixão que, diga-se, já agora, não herdou ou foi imposta, antes construiu por si mesma), pus-me a pensar no futuro: terá ela um dia conversas semelhantes com algum dos seus filhos a propósito do desaparecimento de futuras estrelas? Sentirá o mundo a falta de Taylor Swift, Nicki Minaj ou Justin Bieber – daqui a muitos, muitos anos, certamente – da mesma maneira que nas últimas décadas sentimos os desaparecimentos de Kurt Cobain ou Amy Winehouse e agora David Bowie? A verdade é que o presente já não é o que era e o futuro, obrigatoriamente, irá muito para lá daquilo que tentarmos dele fazer. Mas no presente, que é o que importa agora, o geral sentimento de perda que se sente em relação a uma estrela como David Bowie parece dever-se a um simples facto que poderá ter os dias contados: a capacidade que teve de manter o mistério que sempre o rodeou.

Miguel Esteves Cardoso escrevia que “as invenções dele nunca escondiam, nem por um segundo, a invenção. Escondiam era o inventor: ele”. Tão verdade. Expondo-se e reinventando-se artisticamente a cada passo, Bowie também se escondeu e resguardou e dessa forma alimentou o mistério. E o mistério foi o que nos apaixonou a todos, o que nos manteve agarrados por cinco décadas à sua arte: quem era o homem por trás da máscara, o que gostava de fazer, como era a sua vida privada? David Bowie resguardou-se e manteve-se secreto até ao final: a sua despedida é um belíssimo bailado de ideias, melodias, palavras e imagens, coreografado como um digno e comovente adeus que, ao mesmo tempo, defende da voracidade mediática a sua família e os amigos mais chegados. Tal qual fazem os mágicos que numa mão agitam uma varinha de condão que nos atrai o olhar, enquanto na outra escondem a carta em que todos deveríamos estar afinal a reparar. Bowie criou esta despedida para satisfazer os fãs, mas ao mesmo tempo para proteger a sua família, a sua vida privada, a sua morte, a sua humanidade. Porque, acreditem ou não, ele era humano.

Será possível um tal truque no futuro, quando as novas estrelas se mostram por via de selfies, se expõem nas redes em troca de notoriedade e relevância comercial, procurando crescer na necessária bolsa de valores dos “likes” e “follows” que traduzem as novas mecânicas de popularidade? Haverá ainda mistério na pop? E camaleões capazes de trocar de pele, mantendo a surpresa como um valor permanente? O que dirá a minha filha a um seu rebento, daqui a 20 ou 30 anos, quando desaparecer uma dessas estrelas gigantes que agora nos ilumina a todos?