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A música que não está no Spotify deixa de existir?

Dois grandes álbuns de 2015 – Mutilator Defeated At Last, dos Thee Oh Sees, e Simple Songs, de Jim O’Rourke – não estão disponíveis para audição em streaming. Será que existem mesmo?

No enterro do século passado os últimos resistentes ao telefone móvel começaram a fraquejar. A vida social era insustentável: perdiam ocasiões de convívio, ficavam uma semana inteira sem saber que um antigo parceiro de armas tinha voltado de Erasmus, mas entretanto já se tinha ido embora, e passavam horas à seca à espera de alguém que, provavelmente, poderia ter querido dizer “estou quase a chegar, espera só mais 5 minutos” mas não teve como. “Falamos com o Carlos? Ah espera, o Carlos não tem telemóvel”.

Lá chegou aquele Natal em que a mãe envolveu um Nokia 3310 da rede 093x em papel de embrulho e o filho não conseguiu dizer que não, para alívio de todos os amigos (e da mãe, já agora). Bem-vindo ao mundo maravilhoso das mensagens escritas, um feliz ano novo também para ti e para os teus. “E onde é que eu arranjo um toque parecido com o telefone de disco da casa da avó?”. Calma, que vêm aí telemóveis mais espertos.

O filme repetiu-se com o aparecimento das redes sociais. “Que é feito do Carlos? Não tem Facebook, diz que aquilo é uma cambada de rebarbados. Que é feito do Carlos? Quem é o Carlos?”.

Vamos à música. No enterro do século passado um melómano sabia que uma parte enormíssima do mundo lhe era desconhecido. Para a maior parte das pessoas, essa fatia gigantesca era tudo aquilo que as lojas de discos não colocavam nos escaparates – e isso criava não só assimetrias entre um fã português e outro inglês, mas também entre um “maluquinho” da música de Lisboa e outro de Beja.

Em breve, uma quantidade grande de lojas de discos desapareceria, mas não ficámos propriamente às escuras: a internet meteu a música toda lá dentro (aliás, foi por causa disso que as lojas de discos desapareceram quase todas). Primeiro à bruta e à má fila, depois com os papéis (quase) todos carimbados. Hoje não resistimos ao streaming, à mais radical desmaterialização, e um anexo de email com um ficheiro MP3 denota imediatamente que o remetente terá mais de 50 anos.

Ironicamente, é numa altura em que já não cremos que pelo menos metade do mundo nos está a passar ao lado (ou se está é porque não queremos nada com ela) e vivemos na segurança de que a música toda está dentro do Spotify ou de semelhantes manás (convenhamos, estará mais “toda” do que em qualquer loja de discos) que os maiores “perigos” de branqueamento sucedem.

A “culpa” não é, evidentemente, nossa. E a “culpa” também não é do Carlos, perdão, dos Thee Oh Sees ou de Jim O’Rourke, que têm todo o direito à sua discrição. E, falando mais a sério, a desejar fazer para eles próprios os negócios que melhor lhes sirvam – nem a Castle Face Records (dos garage-rockers de San Francisco) ou a Drag City (a “gigante” indie que edita o ex-parceiro dos Sonic Youth) acharam oportuno apertar mãos ao Spotify e concorrentes (e, provavelmente, o Spotify e quejandos também não estarão muito preocupados com isso, não querendo também enfiar o carapuço da “culpa”).

Sobram factos: quem em 2015 ouviu de forma legal Mutilator Defeated At Last (dos Thee Oh Sees) ou Simple Songs (de O’Rourke) fê-lo porque comprou uma velha rodela de plástico em desuso, reservou uns cobres para o mui vintage e novamente cool - e inflacionado - vinil ou comprou assépticos MP3 porque, enfim, esta gente ainda não está no streaming. Estamos todos a ver a minoria que isto representa, certo?

Há aqui um problema: tanto um álbum como outro – segue impressão puramente pessoal – são duas das melhores coisinhas que o ano passado nos logrou oferecer: Thee Oh Sees no seu fervilhar psicadélico, rolo compressor diabólico que apetece operar vezes sem conta; Jim O’Rourke num ambiente sumptuoso, a seguir de perto o grande livro do cancioneiro da América orquestrada.

É quase certo que daqui por uns tempos ambos acabarão por cair nos streamings desse futuro inevitável, mas por ora são discos perdidos. Não de 1969, que ainda os terá em barda por revelar, mas de 2015. De há uns meses. De uma era em que nada nos escapa porque se não está na internet – ou não dá para meter na nossa playlist das melhores cantigas do ano – é porque não existe.