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Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

E depois dos Beatles ainda alguém duvida do triunfo do “streaming”?

Ao colocar parte importante do seu catálogo nos serviços de “streaming” na véspera de Natal, os Beatles deram a este novo modelo de distribuição a melhor prenda que poderiam desejar nesta quadra.

É verdade que o que a Amazon mais vendeu este Natal, no departamento das máquinas e afins, foram gira-discos. E é notório que há um ressurgimento comercial do formato, com edições atrás de edições, mais as reedições, a sair todas as semanas. Seja como for, mesmo com vendas de vento em popa, não será nunca mais do que um nicho. Um bom nicho. Mas não mais do que isso. Há quem fale depois do regresso da cassete áudio, mas esse tem mais sabor a moda para passar depressa e sem hipóteses de cativar entusiasmos maiores senão os dos que acreditam que ser diferente não basta. Já ouvi falar no “bobina revival”, que ainda menos potencial terá pela frente. E só falta que um dia alguém acorde e resolva ressuscitar os cartuchos... Não se lembram dos cartuchos? Perguntem aos pais e eles dirão que, felizmente, foi coisa que passou.

A verdade é que, apesar de toda esta ebulição de ressurreições, que expressa, entre outras realidades, sinais de uma mudança de valores depois de mais de dez anos em que a pirataria foi quem mais ordenou, não será entre estes formatos físicos que a música gravada encontrará os seus principais veículos de comunicação. E ao entrarem em cena, na véspera de Natal, os Beatles deram aos serviços de streaming a prenda que lhes faltava para fechar 2015 com a consciência de que é com eles que, até que algo diferente se invente, a música vai fluir.

Convenhamos que ter os Beatles a bordo do que quer que seja é aval com sabor à mais segura de todas as cauções. São um valor maior de mercado. E mesmo que “Thriller” de Michael Jackson seja o mais vendido de sempre, com um “best of” dos Eagles logo depois e os Pink Floyd por perto, os Beatles têm um catálogo que não só vale pelas vendas que soma há já mais de meio século como pelo prestígio que dá a quem o tem. Sim, porque ter os Beatles nunca tem sido favas contadas para os novos modelos de distribuição que o mercado da música tem conhecido. Se com o CD a adesão foi rápida, com masters que duraram anos a fio (entre os anos 80 e a famosa campanha de remasterizações de 2009), já com o aparecimento do mercado por download a espera pelos Beatles fez notícia. O mesmo acontecendo agora com o streaming. Tanto que, quando há algumas semanas surgiu um countdown no site do grupo, entre os “mentideros” da música o rumor apontava a chegada ao streaming, o que deixava antever que era coisa desejada e esperada. Contudo, o que se anunciava então era a reedição (com DVD e Blu-ray) da antologia “1”. O streaming só veio com o sapatinho.

A chegada dos Beatles aos mais importantes serviços de streaming traduz a confirmação que é ali que está o modelo de negócio atual para a distribuição de música gravada. Vale a pena lembrar que, hoje, um contrato musical não se limita a pensar os discos a vender. Mas essa parte da fatura é por ali que passa.

Em menos de uma semana “Love Me Do” vai já para mais de cinco milhões de audições. “Come Together” com 3,7 milhões. “Let It Be” com 3,1 milhões. No top 5 estão ainda “Hey Jude” e “Here Comes The Sun” com 2,6 milhões. A estes somam-se milhões de muitas outras canções. E acreditem que estes milhões todos são números de peso na hora de os trocar por dinheiro.

PS. Há ainda discos dos Beatles para colocar nestes serviços. Da série “Anthology” às sessões na BBC, de “Let it Be... Naked” a “Love”... Isto sem esquecer outros títulos que nunca chegaram sequer ao CD. Ainda vamos ter notícias por estes lados...