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Jornalista também sente: Eu voto Gisela

A fadista apresentou ontem, no São Luiz, em Lisboa, a primeira de três noites especiais. Na crónica desta semana, recordamos o trajeto da garota de Barcelos, e as razões por que nos merece toda a fé do mundo.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Conheci a Gisela em julho de 2013, quando fui entrevistá-la ao Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, imponente local escolhido para cenário da sessão fotográfica que acompanharia a conversa. Estava calor e lembro-me de achar que ia mal aperaltada para tão formal destino, no meu vestidito veraneante e sapatos tipo chinelo. Mas os modos quentes da entrevistada, que acabara de lançar o primeiro disco, deixaram-me logo à vontade. Feliz por eu lhe confessar gostar muito do single "Meu Amigo Está Longe", acabou a entrevista a comentar, lacrimejante, uma notícia que ambas havíamos lido sobre um desses casos de abnegação e sacrifício familiar em tempos de crise. Gostei da entrevistada e gostei, muito, da pessoa que nela entrevi. A primeira vez que vi a Gisela em concerto não vi grande coisa: nenhuma de nós é especialmente alta e o palco da Sociedade de Geografia, onde no final daquele mesmo ano atuou no Vodafone Mexefest, sofre do mesmo mal. A minha real estreia aconteceria, então, em janeiro de 2014, no CCB. O concerto começou com "Madrugada Sem Sono", um dos temas mais arrasadores do álbum lançado um ano antes, e ao vivo só faltou à pequenita de Barcelos furar o chão, de tanta força e emoção aplicadas ao fado celebrizado por Beatriz da Conceição. Tal como a narradora da canção, chorei - entre duas senhoras de idade que, minutos antes, indicavam ao telefone estarem sentadas "na fila S, de Salazar!". Sem desvirtuar o fado, a Gisela vai além dele - um pouco como Capicua, outra grande mulher do norte, faz no hip-hop. Desde então, via reinventar-se no início deste ano, no Coliseu, ou no verão passado, numa singular digressão com orquestra, no Algarve. Em comum sempre aquele fogo, aquela verdade, aquela alegria de viver. A Gisela comove-me porque acredita. Acredita em cada palavra que canta, oferecendo-lhe uma dimensão maior e mais profunda, capaz de ficar a ressoar cá dentro durante horas, ou dias. Ontem, estreou no São Luiz o espetáculo Caixinha de Música. Levar um pouco do seu universo àquele teatro era a missão, que terá sido cumprida: ela entrou em palco sentada num trapézio, ela cantou sob um céu de nuvens-balão prateadas, ela emocionou-se e riu-se à gargalhada. E emocionou-se outra vez. Cantando canções de outros, escolhidas para si por amigos, sobrevoou a obra de Nick Cave ("Into My Arms", logo na abertura) ou Serge Gainsbourg ("La Noyée", ao piano), mas encarnou verdadeiramente clássicos de Leonard Cohen ou - porque não atribuir-lhe pelo menos um clássico - Amy Winehouse. Que tenha sequer encontrado espaço para se movimentar e ocupar daquela forma impositiva "Hallelujah" é de louvar; a volta quase blues rock que deu a "Back To Black" justificou bem a repetição do tema no encore. Quando primeiramente ouvi falar da Gisela, quando comecei a vê-la em entrevistas e no palco, lembrei-me da Amy. Salvas as óbvias distâncias, havia algo na espontaneidade da miúda de Barcelos que me transportava para os verdes anos da garota de Londres. Ontem a ligação ganhou outra razão de ser e o caminho de Gisela encontrou novas possibilidades - a experimentar novas temperaturas para a sua voz, a juntar instrumentos como o piano, a harpa e a guitarra elétrica ao seu ensemble, uma das artistas portuguesas que menos cabem numa "caixa" partilhou com uma plateia atenta a sua Caixinha de Música. E que não se assuste quem já não passa sem os seus fados. "Maldição", de Alfredo Marceneiro para Amália Rodrigues, fez uma aparição no alinhamento e a forma como a Gisela sugou o ar em sua volta, nessa canção, sugere que tão depressa tal dom não a abandonará. Ainda que, na sua dimensão icónica e brilhante imprevisibilidade, seja também, algo inesperadamente, o mais próximo que temos de uma estrela pop.

Lia Pereira